Ainda somos humanos

Renata: evoluímos na tecnologia, mas sem tempo para o presente

Luiz tem 35 anos e trabalha como vigilante doze horas por dia. Sua rotina é bem atribulada, ele acorda às cinco da manhã e toma um café bem rápido para chegar ao trabalho às sete e voltar para casa somente às nove da noite. São exatamente duas horas de intervalo entre o despertar do relógio e a portaria da empresa. Neste meio tempo, em um dia comum, ele olha um aplicativo para checar a situação do transporte público, conversa com três amigos, envia e lê piadas em outros quatro grupos pelo Whatsapp, aproveita para dar uma espiada no Facebook, publica em seu perfil a foto do trânsito caótico, checa o número de curtidas e comenta as postagens, ao mesmo tempo em que assiste a vídeos no Youtube e no Snapchat. Quando chega ao trabalho, antes de ir ao seu posto, dá uma última olhada nas mídias sociais. A cena se repete diversas vezes ao longo do dia até o os últimos minutos antes de dormir para começar tudo novamente no dia seguinte.

Luiz é um personagem fictício. No entanto, se pararmos para pensar, todos nós conhecemos ao menos alguém com hábitos de comunicação bem parecidos com os dele. Segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada em 2015 pelo governo federal, quase 50% dos brasileiros utilizam a internet com frequência e, dentre eles, 92% estão conectados por meio de redes sociais, sendo as mais utilizadas o Facebook (83%), o Whatsapp (58%) e o Youtube (17%).

Tempos pós-modernos. Graças à evolução da tecnologia, nós passamos horas e horas dedicados à interação nas mídias sociais e à utilização de diferentes plataformas para fins diversos, desde utilidade pública, passando pelo entretenimento até o relacionamento com amigos e familiares.

A influência dessas novas formas de convívio é tamanha que para um indivíduo ser aceito e reconhecido como membro de alguns grupos, é preciso dominar as novas ferramentas de comunicação, sob o risco de ser julgado e colocado às margens de nossa sociedade.

Não bastasse o domínio técnico e o risco do ostracismo, também é necessário estar disposto a viver a tal da modernidade líquida do filósofo polonês Zygmunt Bauman, de acontecimentos, informações e mudanças a velocidade da luz, com credibilidade escassa e dados em abundância. Haja tempo e capacidade cognitiva!

Com tudo isso, evoluímos em termos de tecnologia e nos transformamos como seres humanos, sem tempo para o presente e, assim, para respeitar diferenças, reconhecer o outro em sua essência e criar empatia.

Esses novos indivíduos que nos tornamos – não falo aqui somente da geração Millenium, mas também de todas as que a antecedem – são aqueles que serão impactados, ou não, pelas iniciativas de comunicação nas e das organizações, desde a interna, da institucional ao marketing. É neles, com todos os seus desafios sociais e pessoais, em quem devemos pensar quando falamos em comunicação.

Todas essas quebras influenciaram o modo como nos relacionamos e são convite para revermos as estratégias de comunicação e voltarmos a pensar no básico, naquilo que nos define como seres humanos sociáveis, com ou sem tecnologia.

Voltar a ter hábitos mais humanos, em um mundo repleto de interações rápidas feitas por meio de aparelhos eletrônicos, é justamente aquilo que nos fará despertar para o presente, ganhará a nossa atenção e nos fará investir o bem mais valioso de nossa época, o tempo. É justamente por esse motivo que ferramentas que despertam o nosso lado emocional, como o storytelling, vêm sendo tão utilizadas pelas marcas e organizações para se comunicarem com os seus públicos.

A boa notícia é: esta transformação, também uma vantagem competitiva para muitas empresas que já perceberam isso, está ao alcance de todos. Basta observar. Na comunicação com os públicos internos, se trata,  por exemplo,  do bom dia do presidente aos funcionários, do cumprimento independentemente do nível hierárquico, da empatia do colega de escritório com o da linha de produção e vice-versa, na transparência da governança, no jogo de futebol após o expediente. Para os públicos externos, é aquele jornalista que, além de ser atendido, recebe um telefonema de parabéns no dia do seu aniversário, ou o cliente, que é chamado pelo nome e recebido por um sorriso e, até mesmo, um abraço, e a comunidade dentro da empresa para dialogar sobre o futuro.  

É indiscutível a imensidão de possibilidades trazidas pela pós-modernidade, mas a melhor delas, sem dúvida, é a chance de  enxergarmos verdadeiramente uns aos outros, inclusive nas organizações, e a transformação para esta comunicação mais humana, com toda emoção a que temos direito, será liderada por nós, profissionais da área.