Notícias falsas e comunicação

Leo Feltran

Fernanda Dabori: "Temos um papel importante na formação da sociedade que queremos construir"

Desde as eleições de Trump, quando a especulação sobre uma onda de notícias falsas ter sido o que ampliou a rejeição à candidata Hillary Clinton, o tema pós-verdade tomou o noticiário geral. Segundo um estudo divulgado pelo site BuzzFeed, nos três meses que antecederam as eleições americanas, as 20 notícias falsas mais amplificadas nas redes sociais tiveram engajamento 20% maior (8,7 milhões de curtidas, comentários e compartilhamentos) que as 20 notícias verdadeiras (7,3 milhões).

Para se ter uma ideia, apenas a notícia infundada e improvável de que o Papa Francisco havia apoiado Trump foi compartilhada mais de 1 milhão de vezes. Outras vítimas, além do Papa Francisco, sofreram com o tema. Indra Nooyi, presidente da Pepsi, foi alvo de uma campanha de boicote após uma falsa entrevista sua, criticando o presidente eleito, circular nas redes sociais. Na verdade, ela nunca declarou sua posição política e apoio a nenhum dos candidatos. 

Obrigados a se posicionar, Facebook e Google lançaram iniciativas sobre o tema e resolveram debater e apontar sites que disseminam notícias notadamente inverídicas. Mas será suficiente?

Afinal, quem divulga notícia falsa?

Pesquisa feita pelo site “The Science Post”, nos Estados Unidos, mostrou que 59% dos frequentadores das redes sociais só leem a manchete. Outro estudo da Universidade de Stanford com cerca de 7.800 estudantes mostra que os jovens entrevistados são incapazes de avaliar a veracidade de informações nas redes. É preocupante constatar que 80% não diferencia entre notícias reais e conteúdo patrocinado e 40% confia em informações questionáveis publicadas por fontes desconhecidas.

Mas quem pensa que o problema é apenas dos jovens está muito enganado. Até quem trabalha e vive de comunicação corporativa está sujeito a erros. Segundo a pesquisa “Consumo de Notícias do Brasileiro”, realizada em parceria entre a Advice Comunicação Corporativa e a BonusQuest, que entrevistou mais de mil pessoas em todo o Brasil, 42% admitem já terem compartilhado notícia falsa nas redes sociais. O índice é bem expressivo e preocupante, uma vez que o indivíduo só tem consciência de ter disseminado algo equivocado quando entra em contato com a notícia verdadeira. Ou seja, esse número pode ser potencialmente muito maior, pois algumas pessoas podem nem saber que disseminaram uma notícia falsa.

A mesma pesquisa demonstrou que 45% dos comunicadores já compartilharam notícia falsa, 3 pontos percentuais a mais que a média geral de todos os entrevistados. O motivo pelo qual o profissional de comunicação divulga mais notícias falsas que a média das outras pessoas, provavelmente deve-se ao fato dele ser mais conectado, ou ainda por consumir mais tipos de mídias (25% usa mais de 5 tipos de veículo para se informar), o que aumenta a chance de ser impactado pela notícia verdadeira.

Porém, o compartilhamento de notícias falsas por ambos os públicos preocupa porque demonstra que mesmo uma pessoa habituada com a análise de notícias e treinada para escrever manchetes está sujeita a se enganar, quase que na mesma proporção que as pessoas que não trabalham com o tema. Isso aumenta a relevância da discussão sobre como a informação é distribuída hoje.

 

Notícia falsa, fato alternativo, ética, Trump e a comunicação corporativa

Em evento da ANER sobre o tema pós-verdade, Carlos Eduardo Lins e Silva comentou que a disseminação das notícias falsas ocorre porque gostamos do que reforça a nossa visão de mundo. As redes falam para “bolhas” e os algoritmos reforçam isso. Mas não são apenas as redes sociais que acabam fazendo este papel. Os veículos mais tradicionais, como jornais e revistas, também falam para uma elite, prova disso é que as ideias de Trump divulgadas nas eleições – porque não eram compreendidas pela mídia americana – fez com que seu crescimento entre os eleitores fosse ignorado ou menosprezado.

Luiz Felipe Pondé cita Dostoiévski e a obra “Os demônios” para lembrar que a verdade, assim como a objetividade, não existe. E se não existe, é possível manipular como quiser. Segundo ele, “o que existe são narrativas”, e a articulação de uma narrativa que importa para determinados grupos e que ao ser repetido diversas vezes, torna-se verdade. Assim, surge o “fato alternativo”!

Eugenio Bucci, sempre preocupado com o fator ético, lembra que se rompido o compromisso com a verdade factual, perde-se junto a democracia.

Em resumo, temos muitas dúvidas sobre Trump como presidente dos Estados Unidos, mas uma certeza. Ele certamente foi bom para o jornalismo, uma vez que nos alertou sobre a multiplicação das notícias inverídicas, reforçou a importância do bom jornalismo investigativo e nos obrigou a pensar o quanto a mídia americana está de costas para grande parte da população.

Do ponto de vista da comunicação corporativa a discussão é enorme e passa principalmente pela ética. É muito mais fácil nos dias de hoje espalhar notícias falsas sobre o concorrente, criar statements que são verdadeiros “fatos alternativos” ou ainda ser “criativo” no storytelling, como fez a marca de sorvetes Diletto, que aliás teve boa retração no mercado. Mas é correto?

Por esta razão a comunicação corporativa vem crescendo e ganhando espaço estratégico nas companhias. E sairão à frente as empresas que conseguirem navegar por todas as plataformas, sem ignorar seu público, construindo uma mensagem de relevância e ética. E sem se deixar contaminar por ditaduras do ON ou do OFF mas, principalmente, não criando uma ditadura de silos.

Ao analisarmos como as pessoas se informam, verificamos que os jornais impressos e online são utilizados como principal fonte para 32% dos profissionais de comunicação, um percentual acima da média da base geral com 29%, que tem como preferência os portais de notícias, com 28%. Ambos empatam na preferência pela TV (22%) e pelas redes sociais (14%) como fonte principal de informação. Apesar da grande disseminação das redes sociais, ainda vemos um expressivo número de entrevistados que indicam obter informações por meio de jornais impressos e online, dos portais de notícia, TV e até mesmo o rádio, que já teve a morte anunciada diversas vezes.

Comunicação é tudo isso junto. É o ON, o OFF, e é também o seu atendimento ao cliente, o seu ponto de venda, o seu funcionário, o entorno etc. A comunicação tem um papel importante na formação da sociedade que queremos construir e saber lidar com este mundo novo, ampliando a discussão construtiva, a troca de ideias, os variados pontos de vista e a diversidade é definitivamente o desafio do novo comunicador corporativo. Começando, inclusive pela parodoxo da atividade da comunicação corporativa que integra – e não exclui – talentos e indivíduos, contribuindo para o nosso setor seja cada vez mais pautado pela ética.