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Paula Nadal: “Se até pouco tempo atrás podíamos contar com uma certa centralidade na distribuição da informação, hoje nada parece isoladamente consistente, confiável ou suficientemente capaz de sensibilizar as audiências. Uma boa estratégia de comunicação, portanto, deve contemplar novas formas de inserção no ecossistema de influência”
Já somos ciborgues. Basta um dia para tocarmos mais de 2.600 vezes em nossos celulares ou um minuto para que o mundo dispare mais de 241 milhões de e-mails e troque mais de 18,8 milhões de mensagens pelo WhatsApp. Em um minuto, todos os dias, mais de 11 mil contas falsas são removidas das plataformas da Meta. Neste mesmo minuto, o ChatGPT recebe mais de 22,8 mil visitas*. E esses dados são de 2023 – alguns “minutos” atrás, mas que sentimos como a passagem de décadas quando consideramos o fomo (fear of missing out) da era das inteligências artificiais, se assim podemos dizer.
Com todo o respeito: quem ainda considera relações públicas como sinônimo de assessoria de imprensa só pode viver em outra dimensão de tempo-espaço. Desenvolver uma boa estratégia de comunicação, hoje, não é algo banal. E justamente por isso o mercado nunca foi tão promissor e fascinante. A mudança é vertiginosa e já aconteceu.
Nesse contexto, trago aqui três visões estruturantes desse processo de mudança na atividade de relações públicas:
- Tomar decisões baseadas em dados - A análise de dados não é o remédio para aplacar os sintomas de conversas mal planejadas ou superficiais, mas a profilaxia para entender por onde caminhar mitigando riscos. Demanda investimento e consultoria especializada, mas é fator-chave para a assertividade. Quanto do budget dos comunicadores, hoje, é destinado a business intelligence? Diversificação de editorias e formatos, monitoramento constante, estudos que analisem como as conversas se propagam (e não apenas o impacto imediato em um veículo ou plataforma de mídia) são essenciais à tomada de decisão do comunicador hoje.
- Entender a Web3 e os novos fluxos de conquista de atenção - Sinto dizer – é duro, eu sei –, mas a sua marca possivelmente não é tão importante quanto parece. Para se ter ideia, 90% dos dados disponíveis hoje no mundo foram gerados nos últimos três anos, de acordo com um levantamento divulgado pela IBM. Quem cria soluções para deter a atenção domina o planeta – vide o crescimento estrondoso de plataformas como o TikTok, por exemplo, que já virou ferramenta de busca e retém pessoas por horas em seus vídeos. Se até pouco tempo atrás podíamos contar com uma certa centralidade na distribuição da informação, hoje nada parece isoladamente consistente, confiável ou suficientemente capaz de sensibilizar as audiências. Uma boa estratégia de comunicação, portanto, deve contemplar novas formas de inserção no ecossistema de influência.
- Combater consistentemente a desinformação - Quatro em cada dez brasileiros afirmam receber notícias falsas todos os dias. E nosso cérebro tende a absorver essas notícias com mais facilidade do que as notícias verdadeiras, pois, em geral, fake news confirmam crenças pré-existentes (é o chamado viés de confirmação). Profissionais de comunicação precisam combater essa mecânica de maneira voraz – seja gerando inteligência analítica; atuando de forma preditiva para mapear comportamentos emergentes; ou entendendo a maneira como essas informações são estruturadas e disseminadas para criar um contraponto usando o mesmo “veneno”.
A desinformação é o maior desafio contemporâneo da comunicação e, certamente, a principal razão de existirmos nos próximos anos. Se já somos ciborgues, que ao menos sejamos os porta-vozes da retomada da confiança nas instituições que garantem a possibilidade de vida em sociedade.