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Entre Pontífices e Engenheiros do Abismo

Paulo Nassar (foto) é um dos nomes convidados para o “Fórum do Pensamento”, do 28º Congresso Mega Brasil de Comunicação, Inovação e Estratégias Corporativas. Neste artigo, ele descreve o cenário geopolítico contemporâneo que coloca entre nós muros invisíveis, mas profundamente reais

Divulgação

Paulo Nassar é Diretor-Presidente da Aberje e um dos nomes confirmados no "Fórum do Pensamento" da 28ª edição do Congresso Mega Brasil de Comunicação, Inovação e Estratégias Corporativas

No cenário geopolítico contemporâneo, onde a interdependência deveria nos unir, voltamos a ver crescer muros invisíveis, mas profundamente reais. 

Tarifas econômicas se multiplicam como trincheiras erguidas contra o espírito da cooperação. Em vez de abrirmos mercados, abrimos feridas. Em vez de fomentarmos o comércio justo, fomentamos o medo do outro. 

A lógica do protecionismo selvagem esconde o ressurgimento de uma velha figura: o demolidor de pontes. Ele veste paletó de chefe de Estado, mas age como arquiteto do abismo. Desfaz acordos, sabota organismos multilaterais e impõe tarifas não como instrumento de equilíbrio, mas como arma de intimidação. 

O comércio deixa de ser ponte entre povos e se torna instrumento de separação. A Organização Mundial do Comércio, o multilateralismo e as normas compartilhadas são tratadas como entraves, quando na verdade são alicerces da estabilidade global. 

A promessa de um mundo interconectado, com cadeias de valor que transcendiam fronteiras, vem sendo desconstruída passo a passo. Em nome da chamada segurança econômica, reerguem-se barreiras. A antiga fluidez entre continentes transforma-se em um jogo de desconfiança, onde cada elo teme o outro. 

A interdependência, que deveria ser sinônimo de resiliência e cooperação, é agora apresentada como fraqueza. Mas a verdadeira fragilidade está na fragmentação. Não é fortalecendo muros que protegeremos economias. É fortalecendo vínculos. O mundo não precisa de economias fortificadas. Precisa de economias conectadas. 

Assistimos também ao ressurgimento de uma retórica perigosa: a do nacionalismo econômico desenfreado. Ela se disfarça de proteção ao trabalhador, mas isola o consumidor. Se diz defensora da produção nacional, mas enfraquece a competitividade. Esse modelo fecha portas, sabota pactos e transforma o parceiro comercial em adversário estratégico. 

A lógica do “cada um por si” pode parecer confortável no discurso doméstico, mas é desastrosa no plano global. Nações que hoje impõem tarifas, amanhã enfrentarão retaliações. O ciclo da desconfiança é tão previsível quanto destrutivo. 

Quando as maiores potências optam por medidas unilaterais, por sanções econômicas e tarifas punitivas, o mundo inteiro sente o tremor. A balança comercial global não é um jogo de soma zero. É um ecossistema delicado. E quando acordos longamente negociados, como os que unem blocos distantes, América do Sul e Europa, por exemplo, são travados por pressões internas ou interesses protecionistas, a ponte entre os hemisférios se desfaz antes mesmo de ser atravessada. 

O comércio deve ser ferramenta de reconciliação, não de barganha política. 

Diante desse cenário, cabe destacar um ator muitas vezes negligenciado, mas absolutamente essencial: o comunicador. Jornalistas, relações-públicas, publicitários, professores, diplomatas, educadores, pensadores e formadores de opinião carregam hoje a responsabilidade de também serem construtores de pontes. Em tempos de ruído e distorção, comunicar com clareza, profundidade e responsabilidade é um gesto político. É por meio da palavra que se constroem as condições para o entendimento. É por meio da escuta que se preserva a possibilidade de um acordo. 

A diplomacia econômica precisa de coragem. De visão. De líderes que pensem além dos ciclos eleitorais e enxerguem o comércio como uma alavanca para a paz. Tarifas, sanções e barreiras não podem ser o novo idioma da geopolítica.

Precisamos retornar ao léxico da cooperação, da interdependência responsável, da confiança negociada. O multilateralismo não é ingênuo. É estratégico. 

E mais do que nunca, o mundo precisa de pontífices econômicos. Líderes que saibam construir pontes entre o capital e o trabalho, entre as nações e os blocos, entre o crescimento e a justiça. 

Porque o verdadeiro progresso não se impõe. Ele se compartilha. E onde há ponte, há possibilidade. 

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