Paula Wenke (foto) é a convidada do Café CUltural.
Tudo sobre cinema, música e literatura você ouve aqui...hoje é dia de Café Cultural, na Rádio Mega Brasil Online!
O Café Cultural conversou com Paula Wenke, dramaturga, roteirista, poetisa, diretora teatral e outras mídias, atriz, locutora, produtora e professora de teatro, TV e cinema, criadora do Teatro dos Sentidos, técnica de encenação teatral idealizada para a total compreensão de uma plateia de cegos ou de enxergantes vendados, que está em São Paulo para uma nova temporada da montagem Feliz Ano Novo
O enredo traz a história do jovem Gabriel, um grito silencioso de resistência, beleza e esperança.Gabriel, um adolescente apaixonado, filho de Roberto, um viúvo e Comandante da Marinha. O rapaz está na biblioteca de seu pai vasculhando em seus livros de poesia uma explicação para os sentimentos que o deixam tão aéreo. Descobre, então, a dedicatória de uma mulher misteriosa na Antologia Poética de Vinícius de Moraes. Vai até seu pai para saber sobre esta tal ''Dama do Mar". Roberto relembra o romance que se iniciou numa passagem de ano, um baile de carnaval com máscaras. Gabriel provoca reflexões em Roberto, levando esta história ao um novo e surpreendente desfecho.
No final da apresentação, ao retirarem as vendas, o público é surpreendido por uma exposição tátil e visual, formada por 20 obras criadas por artistas que traduziram em formas, cores e texturas as emoções da narrativa de Feliz Ano Novo. São eles: Ana Kaíta, Ana Pimentel, André Mexias, Andrea Bussinger, Cesar Aschar, Cida Carvalh, Flávia Franco, Helena Godoy, Lia Paes, Maia Sallemar, Mara Xavier, Marília Albino, Nayara Adami, Paula Wenke, Raíssa da Silva, Ryad Arbash , Sandra Ugah, Teresa Pessoa, Ubiratan Lima, Wissam Arbash e Tornich
O Teatro dos Sentidos, criado originalmente para plateia de cegos, hoje atrai também “enxergantes” que assistem vendados. A abordagem utiliza textos adaptados, e atores provocadores (pessoas responsáveis por gerar interações sensoriais com a plateia em diálogo sensível com a narrativa da peça) estimulam os sentidos remanescentes - audição, tato, olfato e paladar – provocando a empatia da plateia e promovendo uma experiência ímpar. O que era inclusão virou linguagem cênica inovadora, onde o público constrói imagens mentalmente por meio de estímulos sensoriais. A ausência da visão potencializa outros sentidos, surpreende o público com sensações intensas e acesso à criatividade e à memória afetiva.
Após muita militância em favor da causa da Pessoa com Deficiência na Cultura, Paula Wenke teve, em 2024, o diagnóstico tardio de autismo nível 1 de suporte e altas habilidades na área de criatividade, inovação e pensamento divergente. Paula fez seu primeiro curso de Teatro no Tablado (Rio de Janeiro), justo por ser essencialmente introspectiva. O seu desenvolvimento nas artes cênicas foi arma poderosa em favor do desenvolvimento social e profissional. Por outro lado, também dificultou a suspeita do autismo.
"Depois desta descoberta tudo passa a ter um outro sentido: autistas são introspectivos, têm o seu mundo particular, imagético. Por necessidade, o mundo da pessoa cega também é assim, em face da condição de privação da visão. Os cegos utilizam os outros sentidos para se situarem; autistas têm processamento sensorial particular, muitas vezes sendo mais sensíveis a estímulos. No Teatro dos Sentidos estes universos particulares distintos dialogam, entram em colaboração", finaliza a diretora.
A temporada paulistana dá início à Circulação Comemorativa de 25 Anos do Teatro dos Sentidos, uma das primeiras manifestações no país de arte inclusiva no teatro, desenvolvido originalmente para plateia de cegos, e seguirá para Fortaleza, CE, tendo ainda como objetivo criar novos grupos do Teatro dos Sentidos pelo Brasil. Desde 2010, vem ocupando palcos profissionais da cultura com sucesso de público e expandindo seus propósitos. Este projeto foi fomentado pela Bolsa FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2023.
“O maior preconceito contra a Pessoa com Deficiência é o capacitismo que faz alusão à crença equivocada de que “não somos capazes”. Não vemos a proporção tal qual existem em nosso cotidiano. Isto significa que ainda estão prioritariamente em casa, na invisibilidade. A Arte é um instrumento de potência incomensurável para essa transformação de crenças, de cultura. O pódio e o palco são lugares de virtuosos, de capazes. Urge que ocupem estes espaços merecidos, também por uma questão de representatividade e cidadania. O temos a dizer a partir de nossa percepção de mundo? O que experiências ricas em conflitos e desafios diários podem mostrar? Os esportes paralímpicos, culminando com as Paralimpíadas estão revelando tal verdade claramente. Podemos concluir então que a Arte, atividade mais espiritual, mental, emocional do que física é o trampolim perfeito onde nem o céu é o limite” (Paula Wenke).
O Brasil tem 18,6 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a seis vezes a população do Uruguai, duas vezes a população do Paraguai ou uma vez e meia a da Bélgica. Se cada PCD tiver dois familiares, são 54 milhões de brasileiros diretamente ligados à deficiência - um número capaz de decidir uma eleição presidencial. Essa revelação acende a reflexão: onde estão essas pessoas no nosso dia a dia? O quanto ainda precisam lutar por acessibilidade e inclusão? Esta é uma luta de todos. Afinal, podemos nos tornar parte desse universo: a idade, um acidente, qualquer circunstância pode nos transformar.
Não perca a reprise desta conversa que vai ao ar nesta quinta-feira (25/09), às 16h na Rádio Mega Brasil Online
O programa Café Cultural é apresentado por Sérgio Lapastina às terças e quintas, às 16h, com reprises diárias, também às 16h, na Rádio Mega Brasil Online.
O programa também é disponibilizado, simultaneamente com a exibição de estreia, no Spotify, e em imagens, na TV Mega Brasil.