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Fábio França: O Arquiteto dos Públicos

O falecimento do Professor Fábio França, ocorrido nesta segunda-feira (9/2), em São Paulo, marca o fim de uma era, mas consolida um legado imortal para a Comunicação Social no Brasil. Doutor pela ECA/USP, filósofo de formação e psicólogo por vocação, França não apenas ensinou Relações Públicas; ele as humanizou e as elevou ao status de ciência estratégica

Divulgação

Doutor pela ECA/USP, filósofo de formação e psicólogo por vocação, Fábio França faleceu nesta segunda-feira (09/02), em São Paulo, consolidando um legado imortal para a Comunicação Social no Brasil

Faleceu nesta segunda-feira (9/2), em São Paulo, o professor Fábio França, marcando o fim de uma era, mas consolidando um legado imortal para a Comunicação Social no Brasil. Doutor pela ECA/USP, filósofo de formação e psicólogo por vocação, França não apenas ensinou Relações Públicas; ele as humanizou e as elevou ao status de ciência estratégica. E foi nas salas de aula que ele inspirou e formou novos comunicadores, como Elaine Lina de Oliveira, Relações Públicas, Presidente do CONRERP 2ª Região no período de 2007 a 2012. "Conheci o Fábio em agosto de 2004, durante uma aula especial que ele deu para a minha turma do Gestcorp, na ECA. Eu não podia perder a oportunidade de falar com o grande Fábio França – autor de alguns dos principais livros que embasaram a minha formação, então no intervalo fui conversar com ele. Fábio era, na ocasião, o Presidente do CONRERP, e no meio da conversa eu disse que se precisasse de ajuda voluntária por lá, que podia contar comigo. Confesso que falei sem pretensões de que ele levasse a sério, mas para a minha surpresa ele respondeu ‘Olha, preciso sim. Estamos organizando o POP e estou precisando de ajuda. Apareça lá na quarta-feira de manhã para conversarmos’. Eu fui desacreditando que ele me receberia, que sequer se lembraria desse combinado. Mas ele lembrou, me recebeu, passamos a manhã toda conversando e ali começava a minha trajetória de oito anos ininterruptos atuando pelo nosso Conselho profissional”.

Assim era Fábio França: generoso, conciliador, consciente do papel estratégico que representa a Comunicação dentro das organizações. Ao longo de sua trajetória acadêmica teve, ao seu lado, uma forte parceria de conhecimento com Maria Aparecida Ferrari, Relações Públicas, Professora-Pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). “Fábio França foi um profissional de Relações Públicas ímpar. Sua ampla visão da comunicação, ajudou-o a formular a teoria lógica dos públicos, única na América Latina. Trabalhamos juntos e escrevemos três obras sobre as Relações Públicas Contemporâneas”, disse a professora. Mas, suas obras literárias foram além daquelas focadas na Comunicação Empresarial. “Ele foi um especialista sobre Aleijadinho, deixando  duas relevantes obras para a cultura brasileira”, completa Cida Ferrari

No entanto, por certo, sua maior contribuição teórica, foi a “Classificação Lógica de Públicos”, que revolucionou as redações e as salas de estratégia. Antes de França, a divisão entre "público interno e externo" era uma fronteira rasa. Ele ensinou que o relacionamento é definido pela interdependência. Ao categorizar os públicos em “Essenciais” (os pilares da existência), “Não-Essenciais” (os parceiros de objetivos) e “Redes de Interferência” (os formadores de opinião e a mídia), deu aos profissionais um mapa para navegar na complexidade das organizações modernas. Aos 93 anos, tinha como plano fazer a atualização deste seu livro que ainda se mostra atual e relevante. “Ao longo de sua trajetória, Fábio França teve atuação relevante em grandes organizações, como a Caterpillar, e contribuiu de forma significativa para a evolução do pensamento estratégico e teórico da área, especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Seu trabalho deixou um legado importante para o desenvolvimento das Relações Públicas no Brasil, lembra Paulo Nassar, Diretor-Presidente da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial), Professor-Titular e Chefe do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo.

Em 2022, marcou presença na websérie "A Comunicação Empresarial no Brasil - a história contada por quem ajudou a escrever a história", produzida pela Mega Brasil Comunicação. Ao lado de nomes como Lalá AranhaIzolda CremoniniAmaury MarcheseCarlos Mestieri e Renato Gasparetto, Fábio França ajudou a resgatar a memória viva de uma profissão que, muitas vezes, é tão focada no "agora" que esquece seus fundamentos. Seu depoimento nessa série não foi apenas técnico; foi um manifesto ético. Ele personificava o equilíbrio entre o "velho" das terras milenares do conhecimento clássico e o "novo" das tecnologias de informação, entendendo que, embora as ferramentas mudem, a alma da comunicação não tem rotina. 

Fábio França será lembrado pelo seu tom de voz sereno e sua generosidade intelectual compartilhada nas salas de aula e ambientes corporativos pelos quais passou. Ele acreditava que a comunicação era o "porto de chegada" para o entendimento humano. Sua obra, encabeçada pelo clássico "Públicos: Como Identificá-los em uma Nova Visão Estratégica", permanece como leitura obrigatória e bússola moral. Hoje, a distância entre nós e o mestre se impõe fisicamente, mas sua geometria de pensamento continua a sustentar a ponte por onde passam milhares de novos comunicadores. Lembrá-lo é um ato de respeito ao que ele próprio pregava em seus ensinamentos, como recorda Manoel Marcondes Machado Neto, Relações Públicas e CEO do Observatório da Comunicação Institucional“Foi durante sua participação na sala na disciplina da Profa. Dra. Margarida Kunsch sobre ‘Organizações Complexas’, no doutorado ECA/USP em fins dos anos 1990. Ele disse: ‘façamos mais do que temos feito para lembrar daqueles que forjaram as Relações Públicas no Brasil, tanto na academia como no meio empresarial’. Fábio França é figura inesquecível, uma perda irreparável para as Relações Públicas brasileiras”. 

Foi também no início dos anos 1980 que Eduardo Ribeiro, Sócio-Diretor da Mega Brasil Comunicação conheceu Fábio França, período em que ele atuava como executivo na Caterpillar. “Desde então, ele sempre foi uma figura próxima de nós, seja como fonte, conselheiro ou participante em nossos eventos. Mais recentemente, tivemos o privilégio de entrevistá-lo na webserie ‘A história da Comunicação Empresarial no Brasil - A história contada por quem ajudou a escrever a história’, produzida pela Mega Brasil como uma forma de, mais que registrar a história, tê-la contada pelos seus protagonistas. Essa participação é  mais um legado que Fábio França deixa para a Comunicação, uma história que não se encerra aqui, mas inspira gerações a seguir escrevendo novos capítulos".

Fábio França sai de cena, deixando o desafio de manter a Comunicação como um instrumento de transparência e, acima de tudo, de respeito ao ser humano.