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Igor Girão lança Ouroboros.

O Café Cultural conversou com o escritor e bibliotecário Igor Girão, que lança Ouroboros, onde retrata uma sociedade submarina que mede o valor humano pela utilidade, perfeição e obediência, evidenciando a urgência da luta anticapacitista. Confira o programa na íntegra pelos canais da Mega Brasil Comunicação.

Igor Girão (foto) é o convidado do programa Café Cultural.

Tudo sobre cinema, música e literatura você ouve aqui...hoje é dia de Café Cultural, na Rádio Mega Brasil Online!

Sobreviver tem um preço e, no submarino Ouroboros, esse preço é a própria liberdade. No romance após um desastre que tornou a superfície da Terra inabitável, a humanidade passa a viver em uma estrutura tecnocrática rigidamente controlada, que promete estabilidade, progresso e harmonia desde que todos obedeçam e não façam perguntas. Nesse sistema, a vida funciona como uma grande engrenagem social, na qual cada indivíduo precisa provar sua utilidade enquanto cientistas e autoridades buscam aperfeiçoar a espécie por meio da tecnologia e da engenharia genética.

Sony é uma jovem cega e de inteligência extraordinária que precisa provar seu valor em uma comunidade onde o capacitismo estrutura as relações de poder. Pessoas com corpos e mentes fora do padrão são desumanizadas, consideradas descartáveis e enviadas para Findemburg, uma prisão-laboratório de experimentos científicos.

Em contrapartida, Bento é filho de um cientista e resultado do Projeto Engendro, que busca criar o Homo Perfectus por meio de modificações genéticas desde a concepção. Moldado para atingir a perfeição física e intelectual, ele se torna símbolo desse ideal, mas carrega o peso das expectativas e da falta de autonomia sobre a própria vida. Já o escritor Alex Petrov, personagem também central na trama, passa a questionar o regime, tornando-se dissidente e confrontando as estruturas de poder da sociedade em que vive.

À medida que a narrativa avança, as três trajetórias se cruzam e revelam as falhas e crueldades dessa ordem, aproximando-os de uma luta contra o controle, a exclusão e o capacitismo, denunciando a desumanização de corpos considerados “improdutivos”. Cada um, a seu modo, passa a confrontar e expor o sistema que sacrifica a humanidade em nome da eficiência, do progresso e da perfeição.

Com elementos de distopia, suspense e ficção científica, Igor Girão convida o leitor a refletir sobre formas de sufocamento muitas vezes vividas em silêncio. Ao levar essas tensões para um cenário extremo, o autor transforma em narrativa sensações de pressão, vigilância e inadequação que muitos experimentam no cotidiano.

Ouroboros é um símbolo mitológico representado pela serpente que devora a própria cauda. No romance, essa imagem funciona como metáfora de um sistema que busca se preservar a qualquer custo, mas que acaba corroendo a própria humanidade. “A obra não busca apontar vilões individuais, mas expor a lógica de um sistema que confunde desempenho com valor, controle com cuidado e sobrevivência com sucesso”.