Por Paulo Henrique Brazão
27 de Junho de 2025 | 08h00
Alexander Spatari / Getty Images
Ano após ano, principalmente nas últimas duas décadas, um fenômeno crescente vem tomando as corporações, redes sociais e até mesmo espaços públicos quando entramos em junho: as cores do arco-íris passam a ser vistas e celebradas como em nenhum outro mês. Em tempos de polarização e radicalização de opiniões, muitas vezes pautadas por costumes e crenças, é um enorme desafio pensar (e repensar) o Orgulho LGBTQIAPN+ de forma que a sua urgência e necessidade sejam assimiladas pela sociedade – e, em especial, por aqueles que ainda gostariam de ver essas cores dentro do armário. Cabe aos que se juntam à essa onda colorida mostrarem consistência em suas atitudes: afinal, de que forma estamos contribuindo para que toda essa demonstração não seja apenas uma efêmera maquiagem junina?
Farei aqui um relato bastante pessoal: quando revelei para a minha mãe mais de 20 anos atrás que eu era gay, encontrei certa resistência dela em lidar com a nova realidade exposta; não por homofobia, mas, sim, por medo. Lembro-me como se fosse hoje a preocupação dela com a possibilidade de eu sofrer agressões, preconceitos e hostilidades, principalmente da minha futura vizinhança (quando me vissem dividindo o lar com outro rapaz) e no meu ambiente de trabalho. Minha mãe tinha fresca na memória tudo o que seus amigos homossexuais sofreram no fim da década de 1970 e início da de 1980, sendo relegados a ficarem sempre à margem nos grupos sociais que frequentavam e fadados a aceitarem a infelicidade como destino. Para tranquilizá-la, ao menos quanto ao trabalho, expliquei que, no mercado de comunicação, era muito natural a presença de lésbicas e gays e que dificilmente a sua preocupação se tornaria uma realidade tão dura para mim.
De fato, não posso dizer que minha orientação sexual afetou o meu crescimento profissional. Na verdade, não considero que foi um fator preponderante em nenhum sentido na minha carreira. Mas também não posso dizer que nunca notei como as corporações e suas lideranças, no seu dia a dia, ainda não vivem genuinamente conceitos como a diversidade e a inclusão.
Vi profissionais capacitadíssimos não serem mais promovidos por se portarem de forma “afeminada demais” para convenções sociais – e eu, homem cis, branco e não tão afetado não ter tido essa mesma barreira. Por outro lado, já fui chamado à sala de uma ex-chefia que me orientou a não expor o afeto com meu ex-marido nas redes sociais, chamando isso de “um ponto fraco meu”, comparando fotos românticas a um mau hábito que essa mesma pessoa tinha e que recebeu o conselho de esconder, para não se fragilizar diante dos inimigos; e eu tive que explicar que, diferentemente do mau vício dado como exemplo, minha forma de amar não era um defeito, muito menos uma fraqueza.
Não posso dizer que nada disso me prejudicou, mas, também, não quer dizer que não me afetou ao longo desses quase 22 anos de profissão. O ambiente de trabalho, muitas das vezes, é onde passamos a maior parte do nosso convívio social durante a semana; mais até do que os nossos lares – realidade essa que, pré-pandemia de COVID-19, era ainda mais imutável. Por um bom tempo (e por diversas ocasiões), não me sentia à vontade para falar da minha sexualidade nas empresas por onde passei. E percebi que, além do frequente receio de sofrer agressões em público simplesmente por sermos quem somos, poucas coisas nos violentam tanto, silenciosamente, quanto ter medo de falar sobre a nossa própria verdade. É como se um pé ainda estivesse dentro do armário e não conseguisse pisar totalmente em liberdade.
Houve um dado momento em que determinei que esse pé também sairia. Decidi, por exemplo, que à meia noite do dia 1º de janeiro de todos os anos, eu só estaria onde me sentisse seguro e respeitado para dar um beijo no meu companheiro. Também decidi que não me privaria de falar abertamente, como um heterossexual que faria, sobre meu relacionamento ou outras questões que explicitassem minha sexualidade nas redes sociais e no ambiente de trabalho.
Desde então, em minha carreira, busquei estar apenas em locais onde pudesse cumprir essa promessa a mim mesmo. E, mais do que isso: estando numa posição de gestão, cabe a mim, também, manter o clima constante de empatia, acolhimento e respeito à diversidade nas minhas equipes e buscar contagiar ao máximo toda a corporação da qual faça parte. Sei que não é possível voltar lá atrás e reparar o silêncio que eu mesmo me impus por medo, mas podemos lutar para que, hoje em dia, nossos times e colegas venham a ter uma realidade mais inclusiva, leve e digna – nessa e em outras questões.
Embora o mundo pareça estar cada vez mais conservador e hostil com os grupos minorizados, a convicção de se estar lutando pelo que é correto não pode ser abalada. Pelo contrário: é aí que faz sentido existirem datas e eventos como Paradas para celebrar o Orgulho mundo afora. Viver a diversidade e a inclusão de fato, na prática, vai muito além de se pintar com seis cores em junho: é cada um fazer a sua parte nos círculos sociais que integra para que o armário seja apenas uma opção e não uma indesejada forma de se proteger daqueles que querem combater a nossa existência.
Paulo Henrique Brazão
Paulo Henrique Brazão é jornalista, escritor e Diretor de Comunicação na Aliá RP.