Infância conectada: Um terreno onde a inocência é negociada em cliques

Por Sheron Mendes

05 de Setembro de 2025 | 08h00

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A infância brasileira está sendo empurrada para fora do seu próprio tempo. A adultização abreviou o período de descoberta, impondo roupas, gestos e responsabilidades que pertencem ao universo adulto antes que seu desenvolvimento emocional e cognitivo esteja preparado.

Ao lado dela, a erotização acrescenta um elemento ainda mais grave: atribui conotação sexual ao corpo e à expressão infantil, retirando-lhe a neutralidade da idade e expondo-a a significados e olhares que não pertencem ao universo infantil. Na Internet, a passagem de um para o outro é, muitas vezes, imperceptível. A criança adultizada pode rapidamente ser convertida em um conteúdo erotizado, alimentando, ainda que sem intenção, uma lógica de consumo que interessa aos predadores digitais.

Os números mais recentes reforçam essa preocupação. Em 2024, o Disque 100 registrou 36.792 denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Já a SaferNet recebeu mais de 52 mil denúncias de abuso sexual infantil online, no mesmo período. A combinação entre exposição digital precoce, conteúdos sexualizados e ausência de mediação cria um ambiente fértil para que esses crimes prosperem.

Para compreender a profundidade desse impacto, é útil recorrer aos modelos de construção do self e do ser. Na perspectiva ecológica do psicólogo russo Urie Bronfenbrenner, o desenvolvimento humano resulta da interação constante entre indivíduo e ambiente, atravessando diferentes sistemas, como as camadas de uma cebola, onde no centro dela nos deparamos com o microssistema, local destinado às famílias, passando por outras camadas até chegar no macrossistema (cultura e sociedade). Hoje, o ecossistema digital tornou-se parte dessa engrenagem, alterando não só o conteúdo das interações, mas também sua forma e frequência. No coração do microssistema não encontramos apenas os valores parietais, mas sim influencers com quaisquer que sejam os temas e conteúdos.

O filósofo Michel Foucault amplia essa leitura ao mostrar que a construção do ser é influenciada por dispositivos que moldam comportamentos. A Internet, nesse sentido, funciona como um desses dispositivos: define o que deve ser visto, valorizado ou descartado, e institui padrões que as crianças, muitas vezes, reproduzem sem entender suas origens. O poder de moldagem que antes se dava nos espaços institucionais agora é potencializado por algoritmos e fluxos ininterruptos de informação.

Segundo a pesquisa “TIC Kids Online Brasil 2024”, quase 8 em cada 10 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos usam a Internet todos os dias. Entre os mais velhos, o uso ultrapassa facilmente cinco horas diárias em plataformas como YouTube, WhatsApp, Instagram e TikTok. Esse tempo, que antes poderia ser ocupado por interações presenciais, brincadeiras ou atividades físicas, é agora absorvido por um ambiente digital que nem sempre distingue a criança como um sujeito em desenvolvimento, tratando-a como produtora e consumidora de conteúdo em pé de igualdade com adultos.

A pergunta que se impõe é inevitável: diante de um ambiente onde a infância é constantemente atravessada por pressões adultas e por sexualização precoce, e onde a construção da identidade é mediada por lógicas de mercado e visibilidade, estamos realmente garantindo a segurança das nossas crianças na Internet? Ou seguimos delegando essa tarefa a plataformas cujo interesse maior não é a proteção, mas o engajamento?

Sheron Mendes

Sheron Mendes é bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.