A República dos “coitados”

Por Paulo Andreoli

05 de Setembro de 2025 | 17h00

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Paulo Andreoli, fundador e Chairman para a América Latina da AND,ALL

O mundo inteiro envelhece, mas o Brasil envelhece rápido e mal preparado. O Estatuto do Idoso — muitas vezes reduzido a marketing eleitoral — prefere tutelar a capacitar. Faltam ações que vejam os mais velhos como sujeitos produtivos, não como “coitados” merecedores de favores. Enquanto países asiáticos expandem centros de emprego sênior ou bolsas de estudo para requalificação tardia, o mercado brasileiro insiste em associar inovação a juventude — desperdiçando décadas de capital intelectual.

A Organização Mundial da Saúde define o etarismo como “estereótipos, preconceitos e discriminação baseados na idade”. Estima-se que tal viés reduza a expectativa de vida em 7,5 anos, devido ao estresse crônico e ao acesso desigual a tratamentos de saúde.

Num país onde 8,6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais ainda trabalham – menos de um quarto dos 35 milhões que compõem essa faixa etária – a economia já sente tanto o vigor quanto a ausência de mãos experientes. Em poucos anos, estima o IBGE, teremos perto de 50 milhões de idosos; manter pouco mais de vinte por cento deles na força de trabalho significará renunciar a um capital humano que nenhum programa de inovação compensará.

Em nações asiáticas, velhice e utilidade social nunca foram antônimos. No Japão, Silver Human Resource Centers remuneram aposentados em tarefas comunitárias, enquanto empresas recebem incentivos fiscais para contratar trabalhadores acima de 65 anos. Em Cingapura, o Pioneer Generation Package garante bônus vitalícios de saúde, abonos mensais e cursos de atualização tecnológica a quem ergueu a jovem república nos anos 1960. A China foi ainda mais literal: desde 2013, a lei exige visitas regulares a pais idosos e autoriza tribunais a punir abandono afetivo. Essas políticas distintas partem de uma mesma convicção: longevidade é patrimônio coletivo.

A Europa adota rota menos confucionista, mais pragmática. Na Alemanha, subsídios salariais e programas de requalificação mantêm mulheres e homens acima de 50 anos em postos de média e alta qualificação, prolongando carreiras e aliviando a pressão sobre a previdência. Nos Países Baixos, residenciais como o Humanitas, em Deventer, oferecem moradia gratuita a estudantes que se comprometem a dedicar horas semanais de convivência aos moradores idosos – solução que combate simultaneamente isolamento de um lado e déficit habitacional de outro. Nos Estados Unidos, embora o Age Discrimination in Employment Act proteja trabalhadores a partir de 40 anos, sentenças recentes mostram que o preconceito persiste; programas federais como o SCSEP, focados em formação de baixa renda para quem passou dos 55, tentam fechar a lacuna, mas dependem de financiamento político.

Ao confrontar essas experiências com a realidade brasileira, salta aos olhos a mistura de paternalismo e descuido que marca nossas políticas: gratuidade em ônibus e vagas de estacionamento convivem com agressões no trânsito, piadas no trabalho e uma obsolescência planejada de profissionais acima dos 60. Travessias de pedestres cronometradas para jovens atléticos equivalem, na prática, a um veto ao direito de ir e vir de quem anda mais devagar. A incorporação de metas de diversidade etária nas grandes empresas – espelhando iniciativas alemãs – transformaria décadas de know-how em vantagem competitiva, em vez de ônus contábil. Na saúde, dobrar o número de geriatras e investir em prevenção de quedas custaria menos que tratar fraturas em prontos-socorros lotados; na educação, estimular escolas a convidar avós para aulas de história poderia dissolver aquele traço de desprezo que ainda chamamos de “brincadeira”.

Gestos cotidianos completam o quadro: oferecer o braço a quem sobe um degrau, ceder prioridade sem bufar de impaciência, ouvir – realmente ouvir – quem atravessou fases que o resto de nós conhece só por livros. Pequenas ações sedimentam mudanças culturais profundas; são elas que convertem projeções demográficas em empatia palpável.

O Brasil envelhece rápido. Se não valorizar hoje quem já chegou lá, desprezará amanhã a si mesmo. Aos que consideram o tema distante, basta lembrar: o Brasil do futuro será, essencialmente, um país de idosos. Combater o etarismo é, portanto, um investimento de longo prazo — talvez o único em que todo cidadão, mais cedo ou mais tarde, se tornará beneficiário direto.

O desafio está lançado: transformar a velhice de fardo invisível em capital humano visível, produtivo e respeitado. Outros povos já mostraram que é possível. Falta ao Brasil, agora, a coragem de aprender — e de agir.

Paulo Andreoli

Paulo Andreoli é fundador e Chairman para a América Latina da AND,ALL. Ele também é um dos integrantes do Conselho do "Movimento bstory - A experiência que transforma".