Quando evidências do território viram agenda pública: lições para a comunicação institucional

Por Carolina Marciale

16 de Março de 2026 | 08h00

Divulgação

Algumas experiências mudam a forma como profissionais de Comunicação passam a enxergar um país.

Para mim, isso começou há seis anos, no início da pandemia.

Em março de 2020, quando a COVID-19 foi declarada uma pandemia global, cheguei como voluntária à Central Única das Favelas. Em poucos dias, milhares de famílias estavam entrando em uma situação de emergência inédita e a rede da organização começava a se mobilizar em escala nacional.

Foi também meu primeiro contato direto com mobilizações emergenciais em rede.

No início, imaginei que o desafio da Comunicação seria simplesmente informar o que estava acontecendo. Mas rapidamente ficou claro que era algo maior.

Quando uma organização atua em dezenas de territórios ao mesmo tempo, a pergunta deixa de ser apenas o que comunicar. A pergunta passa a ser como organizar a circulação da informação para que a sociedade compreenda a dimensão do que está acontecendo.

Ao longo desses anos trabalhando na Comunicação da CUFA, aprendi que, em contextos complexos, comunicação institucional não é apenas divulgação. Ela precisa organizar fluxos de informação, conectar território, imprensa e instituições públicas e sustentar clareza de narrativa em momentos de pressão.

Mas, acima de tudo, precisa transformar evidências produzidas no território em agenda pública.

Pesquisas do Data Favela mostram, por exemplo, que as favelas brasileiras movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano — um volume econômico comparável ao PIB de muitos países. Ainda assim, por muito tempo esses territórios apareceram no debate público quase sempre associados apenas à escassez.

Os dados ajudam a ampliar essa lente. Eles revelam também capacidade de organização, produção e reconstrução.

Projetos como “Favela no Mapa”, realizados em parceria com o IBGE, mostram que colocar a favela no mapa — literalmente e simbolicamente — também é uma forma de reorganizar o debate público.

Para profissionais de Comunicação Institucional, isso amplia o papel da área: não apenas divulgar ações, mas organizar evidências capazes de qualificar o debate público e influenciar decisões institucionais.

Na prática, esse trabalho costuma seguir uma lógica relativamente simples: parte do território, transforma experiências em evidência, organiza essa evidência em narrativa e, a partir daí, contribui para que determinados temas ganhem espaço na agenda pública.

Seis anos depois daquele início inesperado, sigo convencida de algo.

Comunicação institucional relevante não é apenas a que conta histórias. É a que ajuda evidências do território a influenciarem decisões públicas.

Em um cenário em que decisões institucionais dependem cada vez mais de evidências, organizações capazes de conectar território, dados e comunicação ampliam sua capacidade de influenciar agendas públicas.

Carolina Marciale

Carolina Marciale atua em comunicação institucional e articulação de agendas públicas. Na CUFA - Central Única das Favelas, como Diretora de Comunicação Institucional, trabalha para transformar evidências produzidas no território em narrativa pública capaz de qualificar decisões institucionais e inserir temas relevantes no debate público.