O Fim da Engrenagem

Por Marco Antonio Rossi

18 de Março de 2026 | 16h00

Divulgação

Em 1936, Chaplin já nos alertava: o sistema que nos transforma em engrenagens acaba por nos devorar. Noventa anos depois, o desafio mudou de face, mas a urgência de resgatar o humano nunca foi tão real

Por décadas, o sucesso corporativo foi medido pela eficiência da máquina. O colaborador era a peça; o líder, o operador. O século XXI, no entanto, nos impôs uma ruptura: em um mundo cada vez mais estruturado em torno da Inteligência Artificial, que nos traz incertezas e automação, o que sobra de mais valioso em uma organização é, precisamente, o que não pode ser programado: a subjetividade, a criatividade e a capacidade de conexão emocional.

Desse modo, não podemos ignorar o elefante na sala. Falar em humanização dentro de um cenário de extrema competitividade e meritocracia implacável parece um paradoxo insolúvel. Vivemos a era do "sucesso a todo custo", um traço comportamental exacerbado pelas redes sociais, onde a vulnerabilidade é editada e apenas o resultado brilhante é postado. O problema desses tempos de histrionismo midiático, é o obstáculo sistêmico que este ambiente criou: o medo de parecer "humano demais" e, portanto, vulnerável, frágil, menos competitivo.

O que prevalece no ambiente pessoal e privado, se reflete no ambiente de trabalho também. O colaborador sente que precisa performar como um algoritmo, sem oscilações, enquanto o líder é pressionado a entregar resultados trimestrais que ignoram os ciclos naturais de esgotamento e aprendizado. Como, então, buscar a humanização no ambiente de trabalho diante desse cenário no qual “o buraco se mostra mais embaixo”, ou seja, o cerne da questão vai muito além, ele é estrutural? Explico: O conceito de sucesso que está por trás do nosso modelo econômico, o capitalismo,  privilegia o indivíduo e não a coletividade. Não por acaso que na maioria de convenções e palestras motivacionais a figura que traduz essa ideia de liderança e sucesso é a imagem do lobo, este ser solitário, que vence e sobrevive, que se coloca, pelos próprios méritos, no topo da cadeia. A imagem do "lobo solitário" está presente em nosso inconsciente coletivo, é cultural, e ela garante que a engrenagem gire em favor do sistema econômico prevalente, fundamentalmente baseado na diferença social como propulsor de si próprio.

Sim, o conceito do “lobo solitário” é a personificação do modelo econômico ocidental, fundamentalmente baseado na diferença social como propulsor de si próprio. Nesse modelo, a distância entre quem está no topo e quem está na base funciona como um motor que, mesmo inconscientemente, faz o sistema funcionar. Ela gera a motivação (desejo de ascensão) e a pressão (medo de cair) necessárias para mover a engrenagem produtiva. A meritocracia, muitas vezes, funciona como um discurso que justifica essa desigualdade, ignorando os contextos individuais e incentivando a competição predatória.

A questão é que, biologicamente, o ser humano não é um "lobo solitário", mas um animal social projetado para cooperar. Esta é, pelo menos, a conclusão de Simon Sinek em seu livro “Líderes se servem por último (Leaders Eat Last)”, no qual aborda aspectos antropológicos, biológicos e sociais que envolvem o capitalismo e a competição no ambiente de trabalho. Segundo ele, o modelo de gestão que coloca o indivíduo contra o indivíduo (meritocracia predatória) eleva os níveis de cortisol (hormônio do estresse), o que inibe a oxitocina (hormônio da confiança e cooperação). Em outras palavras, o modelo atual de liderança vai de encontro com a natureza humana. Então, a pergunta que fica é: somos capazes de reverter esse quadro? Aqui reside o coração da mudança. A liderança é a interface mais tangível da cultura organizacional. Ela pode ser a ponte que conecta o propósito individual ao objetivo coletivo, ou a parede que isola, sufoca e adoece. 

A humanização exige que o líder abandone o pedestal da infalibilidade. Um líder humanizado é aquele que tem a coragem de ser vulnerável, que sabe dizer "não sei" e que entenda que o comando e controle faliu. Isso não significa perder autoridade, mas sim redefini-la: o líder se fortalece ao expor suas limitações com confiança, criando um vínculo de autenticidade com sua equipe, e assim resgatando o conceito da coletividade. Aqui, vale lembrar a pesquisadora da Universidade de HoustonBrené Brown, em sua obra “A Coragem de Liderar (Dare to Lead)”, na qual desconstrói a ideia de que o líder deve ser um "lobo solitário e autossuficiente”, e afirma que a vulnerabilidade é o berço da inovação e da criatividade. "A armadura que usamos para nos proteger — o perfeccionismo, a necessidade de ter todas as respostas e o medo de parecer fraco — é o que impede a conexão e a confiança nas equipes". Para Brown, o líder que finge não ter fraquezas (o lobo infalível) cria um ambiente de medo onde ninguém se sente seguro para errar ou criar. 

Portanto, o processo de humanização do ambiente de trabalho passa pelo entendimento de que o sucesso de um tem que ser o sucesso de todos! O desafio é transformar chefes que gerem tarefas, em líderes que cuidam de contextos, fomentando a Segurança Psicológica onde a competição de ideias seja saudável, mas não predatória. Neste sentido, a professora da Harvard Business SchoolAmy Edmondson, em seu estudo clássico “The Fearless Organization”, prova estatisticamente que equipes de alto desempenho não são aquelas que não cometem erros, mas aquelas onde os membros se sentem seguros para admitir falhas sem serem punidos. 

Diante dessa composição de engrenagens, na busca por um ambiente de trabalho mais justo, acolhedor e produtivo, somos levados a concluir que a Comunicação Interna é o sistema nervoso central dessa virada de chave. Ela não deve ser apenas informativa, mas geradora de sentido. A corporação do futuro é aquela que funciona como um organismo vivo, que pulsa, sente e evolui através de conexões construídas no cotidiano, de mesa em mesa, das conversas de corredor à mesa de reuniões. 

Mesmo diante das barreiras estruturais que aqui destaquei, muitas empresas buscam por esse caminho, o caminho da humanização no ambiente de trabalho, porque entendem que a humanização nas relações de trabalho não é um exercício de benevolência, mas uma necessidade de sobrevivência, pois uma corporação que não humaniza suas relações é uma estrutura estéril, onde o talento se esvai e a inovação morre no silêncio do medo. 

Mega Brasil Comunicação decidiu encarar esse tema ainda sensível dentro das organizações no seu “16º Seminário de Comunicação Interna e Relacionamento com Empregados”. Foi atrás de empresas que buscam romper processos e propor caminhos, muitas vezes encarados como disruptivos, na busca de um ambiente de trabalho mais humanizado, mesmo quando inserido num cenário de mercado competitivo e desafiador. Aliás, o desafio está justamente aí. 

Estão conosco neste desafio: Adriano Zanni, Gerente de Cultura, Comunicação Interna e Experiência do Colaborador no Grupo Casas BahiaAlexandre Júnior, Supervisor de Comunicação e Responsabilidade Social da São José Agroindustrial; Juliana Annunciato, Gerente de Comunicação Interna Brasil da NaturaKarla Magalhães, Gerente de Desenvolvimento Organizacional, Cultura e Comunicação Interna da SompoLeila Gasparindo, CEO do Grupo Trama ReputaleMariana Conde Sekeres, Coordenadora de Comunicação Interna, Endomarketing e Patrocínios da Caixa Vida e PrevidênciaOlívia Zubaran Vitiello, Especialista em Comunicação na JTI ; Patricia GilESPM – Escola Superior de Propaganda e MarketingThiago Massari, Líder de Comunicação Integrada da Bayer;  e Priscila Quaresma, Gerente de Comunicação Interna e Marca Global na Votorantim Cimentos. A mediação dos painéis estará a cargo de Elizeo Karkoski Pereira, Diretor Executivo na P3K ComunicaçãoCarlos Henrique Carvalho, Consultor em Comunicação Corporativa; e Viviane Mansi, Executiva de Comunicação, Mestre em Comunicação e escritora, vencedora na categoria “Executivo Nacional” no TOP Mega Brasil 2023, e vencedora na categoria “Executivo Regional” no TOP Mega Brasil 2024

Este, não será um encontro apenas para debater ideias ou conceitos, mas para ver, na prática, como obter resultados e como vencer obstáculos, afinal, não estamos aqui apenas para falar de trabalho. Estamos aqui para falar de vida, de respeito e da construção de um lugar onde valha a pena estar. E para ter sempre presente em nosso dia a dia, que o que sustenta a ponte entre a meta e o resultado, é sempre o abraço humano. 

Junte-se a nós em mais essa jornada de conhecimento. Acesse: https://eventosmegabrasil.com.br/evento/seminario-de-comunicacao-interna-2026 e participe!