Por Larissa Sugiyama
06 de Maio de 2026 | 12h00
Divulgação / LinkedIn
"Quando a linguagem esconde o agressor, a responsabilidade também se esconde. A imprensa tem um papel central nisso e pode ajudar a reconstruir essa narrativa, sem naturalização”, afirma Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil
No Brasil, a violência contra a mulher não é apenas um problema de segurança pública; é também um problema de narrativa. Todos os dias, casos de perseguição, abuso e feminicídio ocupam as manchetes. Mas, na forma como essas histórias são contadas, algo essencial segue ausente: quem comete o crime. Isso porque a imprensa costuma usar a voz passiva nesses casos.
Expressões como “mulher é morta” ou “mulher é agredida” continuam recorrentes, mesmo em um cenário em que 84,2% dos feminicídios são cometidos pelo companheiro da vítima e 64,3% deles acontecem dentro de casa, de acordo com o “Anuário Brasileiro de Segurança Pública”. Ao colocar a vítima como sujeito da frase e apagar o agressor, a linguagem contribui para diluir a responsabilidade e tornar a violência difusa.
É a partir dessa constatação que a ONU Mulheres lançou o movimento “Voz Ativa”, criado em parceria com a agência Artplan. A iniciativa propõe uma mudança direta na forma como esses casos são narrados: substituir construções na voz passiva pela voz ativa, uma forma de escrever que deixa explícito que violência contra a mulher tem sempre um responsável.
“Avançar nas leis e fortalecer os serviços de atendimento às mulheres é fundamental, mas não basta. A mudança cultural precisa andar junto. A forma como a sociedade fala sobre a violência contra as mulheres influencia diretamente a forma como ela é compreendida. Quando a linguagem esconde o agressor, a responsabilidade também se esconde. A imprensa tem um papel central nisso e pode ajudar a reconstruir essa narrativa, sem naturalização”, afirma Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil.
Mais do que uma provocação sobre linguagem, o movimento vai se desdobrar em uma ferramenta prática pensada para o dia a dia das redações e, também, para o público em geral: um guia editorial para complementar os famosos manuais de redação de cada veículo, com orientações de como usar a voz ativa em casos de violência contra a mulher.
“Durante anos, a gente se acostumou a ler a violência como se ela simplesmente acontecesse. Mas violência não acontece, alguém faz. E quando esse alguém some da frase, a responsabilidade some junto”, comenta Roberta Moraes, Executive Creative Director (ECD) da Artplan.
A campanha é apresentada por meio de um filme construído a partir de manchetes reais e de um manifesto que evidencia o impacto dessa escolha de narrativa. A mobilização inclui o engajamento de jornalistas, criadores de conteúdo e especialistas, com o objetivo de estimular uma revisão mais ampla sobre como a violência contra a mulher é retratada e, consequentemente, compreendida na sociedade.