Por Alex Compri
19 de Junho de 2026 | 08h00
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O mercado vive hoje um paradoxo. De um lado, a ascensão da Inteligência Artificial promete ganhos exponenciais de produtividade e eficiência; de outro, as empresas voltam a ampliar seus investimentos em Marketing. Ainda assim, quanto mais se investe, mais difícil parece ser responder à pergunta central do negócio: “Qual é, de fato, o impacto direto dessas iniciativas na geração de receita?”.
Um estudo recente da McKinsey torna esse paradoxo ainda mais evidente. Embora 3 em cada 4 CMOs planejem aumentar seus investimentos em Marketing, apenas 3% conseguem comprovar um retorno superior a 50% sobre esse gasto. Ao mesmo tempo, 94% das organizações ainda operam com capacidades baixas ou moderadas em Marketing com IA, justamente a tecnologia que promete destravar eficiência e mensuração. Nesse contexto, o investimento cresce, mas a capacidade de traduzir esse esforço em impacto financeiro segue limitada.
Essa lacuna entre o que se gasta e o que se fatura é o que chamo de “vale invisível”. É o espaço onde as ações de Comunicação e Marketing se perdem em métricas de esforço enquanto o negócio espera resultados de venda. O problema não é a falta de tecnologia, mas a persistência de uma lógica de decisão analógica em um mundo de dados.
O "Balde Furado" das métricas de vaidade
Muitas empresas hoje operam o que chamo de “balde furado”. Elas medem visitas no site, cliques e conversões de leads (que, na prática, são apenas contatos frios) e celebram esses números como sucesso. No entanto, se você não mede o quanto desse esforço gerou pipeline real e receita, você está apenas medindo o volume de água que entra, sem olhar para os buracos no fundo do balde.
Nesse cenário, dobrar o investimento é um erro estratégico. Sem uma arquitetura de receita bem definida, que alinhe Marketing e Vendas sob a mesma lógica de crescimento, o aumento de orçamento serve apenas para impulsionar o que já não funciona. Como costumo dizer: Marketing que não vira receita é apenas gasto bem editado. Ou, no máximo, um slide bonito para apresentar em reuniões de board que o CFO não vai comprar.
A IA como amplificador, não como estratégia
É justamente na tentativa de estancar esse “vazamento” de dinheiro que muitos líderes recorrem à tecnologia como uma bala de prata. Por isso, a Inteligência Artificial entrou no jogo como a grande promessa de eficiência. Mas não é solução mágica para estratégias falhas. Ela resolve problemas de execução e operacional, mas não resolve problemas de arquitetura de negócio.
Se a sua estratégia de Comunicação é ruim, a IA só vai ampliar o erro. Ela vai gerar mais conteúdo irrelevante com mais rapidez e gastar seu budget de mídia com mais eficiência no leilão errado. O líder que pensa como um CRO (Chief Revenue Officer) entende que o foco deve ser na redução do CAC (Custo de Aquisição de Cliente) e na otimização do LTV, e não apenas na diminuição do CPL (Custo por Lead). No B2B, o lead a qualquer custo é o caminho mais rápido para o prejuízo.
O que separa quem atravessa o vale
Atravessar o vale invisível exige uma mudança estrutural em três pilares:
1.Leitura de negócio: O Marketing precisa dominar a terminologia financeira. O líder moderno deve saber falar de Win Rate, Pipeline Coverage e CAC. Se o seu dashboard só tem impressões e cliques, ele não serve para convencer o CFO que o Marketing influencia o negócio.
2.Capacidade de decidir com dados: Precisamos abandonar a "decisão analógica" baseada em opinião ("eu acho que essa peça é melhor"). A decisão precisa ser baseada em experimentos pequenos, validados e escaláveis. É o conceito de growth aplicado à veia: hipótese, teste, iteração e escala.
3.Integração real (Marketing + Vendas + Produto): A arquitetura de receita exige que Marketing e Vendas estejam na mesma página. Lead não é um contato que baixou um PDF; lead é a oportunidade qualificada que tem chance real de fechar negócio. Se os departamentos não concordam nessa definição, o dinheiro está vazando.
O Marketing que se esconde atrás de métricas de vaidade e "branding por branding" está com os dias contados. O CFO não quer saber quantas pessoas viram o anúncio; ele quer saber quantas contas novas entraram no pipeline.
Para os líderes de Marketing, o conselho é um só: reestruture seu dashboard agora. Troque as métricas operacionais por métricas de receita. Comece com experimentos pequenos e prove o ROI antes de pedir mais budget. Na era da inteligência de dados, a agilidade no desenvolvimento e na execução não é mais um luxo técnico, é uma infraestrutura de sobrevivência corporativa.
Atravessar o vale entre esforço e receita não é uma questão de ter a melhor IA, mas de ter a coragem de ser medido pelo que realmente importa: o crescimento do negócio.
Alex Compri
Alex Compri é sócio e Diretor de Marketing, Growth e Projetos Digitais da BRSA, onde lidera a transformação estratégica de grandes marcas por meio de dados, personalização e inovação em escala.