Por Samara Monteiro
01 de Julho de 2026 | 16h00
Divulgação / Gemini
No meu último artigo, defendi a necessidade de os comunicadores resgatarem o valor das conexões humanas e do pensamento original diante da saturação de conteúdos frios gerados por inteligência artificial. Contudo, reconhecer a importância do fator humano não significa ignorar a engrenagem técnica que hoje controla o fluxo da informação. Quando precisamos disputar o espaço digital, o algoritmo das ferramentas de IA generativa deixa de ser apenas uma tecnologia de bastidor e passa a funcionar como um público estratégico que o profissional de Relações Públicas precisa mapear e entender.
Nas matrizes tradicionais de Relações Públicas, o mapeamento de públicos estratégicos segue um roteiro conhecido: imprensa, colaboradores, comunidade, investidores e reguladores. Construir relacionamento, gerenciar crises e consolidar a reputação com esses grupos sempre foi o centro do trabalho de comunicação corporativa. No entanto, o ecossistema de informação mudou. Se antes o desafio digital era otimizar conteúdos para os tradicionais algoritmos de busca do Google (o conhecido SEO), hoje o novo ator que dita o alcance das mensagens é outro: o algoritmo das ferramentas de Inteligência Artificial generativa.
Essa inteligência matemática não participa de coletivas de imprensa, não responde a e-mails e não está disponível para conversas de relacionamento. Ainda assim, é esse mecanismo que determina, em tempo real, se o posicionamento de uma empresa será visível ou se ficará omitido nas respostas e resumos gerados por essas novas plataformas.
Para a essência do PR, o algoritmo de IA não é o público final e nem o mais importante (esse posto sempre pertencerá às pessoas). Máquinas não compram produtos, não investem em ações e não defendem uma marca em momentos de crise. Apesar disso, elas se consolidaram como os filtros que controlam o acesso à atenção humana. De nada adianta uma empresa desenvolver uma mensagem transparente se esses novos sistemas baseados em modelos de linguagem barrarem a sua entrega. Por isso, compreender o funcionamento dessa nova engrenagem passou a ser uma prioridade estratégica para a comunicação.
Para planejar estratégias eficazes, os profissionais de comunicação precisam entender o algoritmo de IA como uma persona que possui critérios claros de funcionamento. Para deixar mais lúdico, personifiquei o Algoritmo e descrevi, abaixo, as suas características:
. Função: síntese de informações, tomada de decisão e distribuição de alcance digital.
. Comportamento: é pragmático e imune a narrativas puramente institucionais. Ele opera continuamente analisando padrões de comportamento do usuário e, principalmente, a coerência conceitual e o contexto de dados textuais espalhados pela web.
. O que ele rejeita: textos excessivamente burocráticos, páginas corporativas lentas, links quebrados, arquivos pesados e marcas que só aparecem nos canais digitais para publicar anúncios comerciais.
. O que ativa o seu interesse: a consistência de publicação e a relevância imediata do conteúdo. O algoritmo analisa o quanto um material consegue reter a atenção das pessoas. Se o público interage e consome a mensagem, o sistema amplia a distribuição organicamente.
Três frentes práticas de relacionamento com o algoritmo
Tratar o algoritmo de IA como um público-alvo exige que o PR entenda suas regras de funcionamento e adapte a rotina de comunicação corporativa a três frentes principais:
1. A evolução da busca: do SEO para a Otimização de IA (IAO)
O comportamento de busca mudou radicalmente. Durante anos, as estratégias de PR digital focaram no SEO tradicional do Google, cujo objetivo era indexar palavras-chave para colocar os links da empresa na primeira página de resultados, deixando que o usuário clicasse e tirasse suas conclusões.
A novidade trazida pelas ferramentas de inteligência artificial generativa muda esse fluxo. Quando investidores, jornalistas ou consumidores procuram informações, essas plataformas realizam varreduras na Internet para ler, resumir e entregar uma resposta pronta para o usuário. Em vez de uma lista de links, a IA frequentemente emite julgamentos e faz recomendações diretas. O papel do PR aqui passa a ser o de garantir que a IA encontre dados limpos e estruturados para que a marca seja mencionada nessas respostas prontas. Isso significa manter as salas de imprensa atualizadas, priorizar textos claros e semanticamente corretos em vez de apostar apenas em imagens e infográficos.
2. Retenção e a técnica da pirâmide invertida
O objetivo dos novos sistemas digitais é manter os usuários interessados. Se um comunicado de imprensa ou artigo opinativo for longo, cansativo e repleto de jargões corporativos vazios, as pessoas vão abandonar a página rapidamente. O sistema de IA identifica esse abandono como um sinal de falta de qualidade e diminui a relevância do conteúdo em suas análises.
Para evitar isso, a estrutura do jornalismo clássico se torna essencial. O gancho principal, o fato e o impacto social devem estar logo no primeiro parágrafo. Prender a atenção do leitor logo de início sinaliza para o algoritmo que o conteúdo é valioso, o que ajuda a manter o conteúdo na base de dados recomendada pelo sistema.
3. Auditoria de viés e gerenciamento de histórico nas IAs
No modelo tradicional de PR, se um veículo publicava uma informação errada, o assessor entrava em contato com a redação e solicitava uma correção. No ambiente dos buscadores antigos, o conteúdo negativo ficava restrito a um link. Agora, com as IAs, os erros de interpretação podem ser contínuos e consolidados na resposta final se baseados em menções negativas antigas que ainda têm peso na Internet.
Para lidar com isso, a comunicação precisa realizar auditorias constantes para entender como os modelos de linguagem enxergam e resumem a empresa em tempo real. Corrigir uma percepção distorcida da máquina exige alimentar os canais digitais com novos fatos estruturados, relatórios de governança atualizados e posicionamentos claros. É um trabalho de atualização de dados para que a inteligência artificial mude seus parâmetros de síntese sobre a marca.
O ecossistema de informação e o papel do PR
A comunicação corporativa não pode mais produzir conteúdo pensando apenas no consumidor final e ignorar os novos mecanismos inteligentes que controlam o caminho até ele.
Se o SEO e o Google já faziam parte da rotina, os algoritmos de IA agora mudam a forma como a reputação é consumida. Eles não substituem o fator humano, que continua sendo o objetivo final de qualquer estratégia de comunicação, mas funcionam como uma etapa obrigatória no processo. Ignorar essa realidade no planejamento é o equivalente a fazer assessoria de imprensa no passado desconsiderando os jornais impressos.
Mapear os públicos tradicionais continua sendo vital para a sobrevivência das empresas. No entanto, a capacidade de ser ouvido em um ambiente saturado de informações dependerá de entender o que os novos mecanismos de IA precisam ler para permitir que a voz da marca chegue, de fato, ao público.
Samara Monteiro
Samara Monteiro é jornalista e especialista em comunicação corporativa, reputação e posicionamento de marcas, com mais de duas décadas de experiência ajudando empresas a transformar estratégia em narrativa. Sócia e Diretora de Atendimento na BRSA, lidera projetos com foco em assessoria de imprensa e relacionamento com stakeholders, com forte atuação no setor de tecnologia B2B e experiência também no segmento do agronegócio. Ao longo da carreira, consolidou uma visão que une pensamento estratégico, sensibilidade humana e foco em resultados, acreditando que a comunicação bem-feita não apenas informa, mas conecta, influencia e gera valor. É apaixonada pela comunicação humana e está sempre disponível para um café acompanhado de boas trocas de figurinhas e aprendizados.