Por Carolina Marciale
20 de Julho de 2026 | 08h00
Duda Fortes / Agência RBS
Primeiro de maio de 2024. O celular não para. Do outro lado da linha, times no Rio Grande do Sul pedindo confirmação: pode divulgar esse Pix, pode confirmar esse endereço de doação, pode validar essa parceria antes de sair para imprensa. Em poucos dias, o que era uma ação pontual virou treze centros de distribuição funcionando ao mesmo tempo em dez cidades: Porto Alegre, Esteio, Sapucaia do Sul, Alvorada, Caxias do Sul, Montenegro, São Leopoldo, Bento Gonçalves, Santa Maria, Passo Fundo. Cada informação que saía errada naquele momento não era erro de imprensa. Era risco de vida.
O sociólogo alemão Ulrich Beck chamou isso de “sociedade de risco”: quanto mais moderna e conectada uma sociedade, mais os riscos deixam de ser eventos isolados e passam a ser distribuídos, de forma desigual, entre quem tem estrutura para absorver o choque e quem não tem. A enchente de 2024 confirmou a tese com números. Dados do AdaptaBrasil mostram que dois em cada três municípios brasileiros têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa a eventos climáticos extremos. A água não escolhe onde cai. Mas escolhe, na prática, quem afunda primeiro.
O Brasil entra agora no segundo semestre de 2026 sob risco de um “Super El Niño”, fenômeno que só se repetiu quatro vezes em cento e cinquenta anos. Nota técnica conjunta do Inpe, Inmet, Funceme e Censipam aponta probabilidade acima de 90% de o evento se sustentar até o início de 2027, com o mesmo corredor de risco de enchente concentrado em Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. É a mesma geografia de 2024. A diferença é que, desta vez, ninguém pode dizer que não sabia.
A CUFA entrou na linha de frente da resposta de 2024 com uma estrutura que já existia antes da água subir: rede de território e parceria logística com empresas como GOLLOG, iFood, Unilever e Mercado Livre. Por trás disso, a comunicação construiu uma narrativa simples, em três fases, pra organizar a informação e orientar quem doava. Primeiro resgatar e acolher quem perdeu casa, comida e água. Depois avaliar a perda, quando o nível baixa. Por último reconstruir, o que inclui moradia e renda, não só doação emergencial.
O que sustentou essa estrutura não foi a velocidade de reação. Foi a comunicação que já estava organizada antes da emergência: canal de doação verificado, porta-voz definido, protocolo de checagem de informação antes de qualquer divulgação, parceria de imprensa e logística já estabelecida. Comunicação que nasce depois que a água já subiu chega tarde para quem está dentro dela.
Isso vale além do terceiro setor. Toda empresa que opera com gente na ponta, seja entregador, agente de crédito, motorista ou funcionário de loja em território de risco, tem exposição direta ao mesmo fenômeno. Tratar comunicação climática como pauta de ESG de fim de ano é decidir, na prática, avisar depois que o problema já virou manchete.
O que 2024 deixou como lição pra quem lidera comunicação em 2026 é objetivo. Primeiro: estrutura de resposta se constrói antes da crise, nunca durante. Segundo: canal verificado é o primeiro ativo de credibilidade que uma organização tem numa emergência, e se perde rápido se for usado errado uma única vez. Terceiro: parceria de logística e de imprensa não se monta em cima da hora, se monta com meses de antecedência, enquanto ainda dá tempo de escolher os parceiros certos. Quarto: comunicação de risco só protege de verdade quando chega em quem está no território, não quando fica presa em relatório interno ou post institucional.
A água do Rio Grande do Sul já avisou uma vez, em 2024. O “Super El Niño” de 2026 é a segunda chance de ouvir. Quem trata isso como risco real de operação se prepara agora. Quem trata como campanha de sustentabilidade só vai lembrar disso quando a água já estiver na porta de novo.
Carolina Marciale
Carolina Marciale atua em comunicação institucional e articulação de agendas públicas. Na CUFA - Central Única das Favelas, como Diretora de Comunicação Institucional, trabalha para transformar evidências produzidas no território em narrativa pública capaz de qualificar decisões institucionais e inserir temas relevantes no debate público.