Antes de julgar, aprenda a ver

31 de Julho de 2026 | 08h00

Google / Gemini

Nunca foi tão fácil emitir uma opinião. Nunca foi tão difícil compreender o que realmente está diante de nós. As redes sociais aceleraram o ritmo das respostas, os acontecimentos se sucedem sem pausa e somos constantemente convidados a tomar partido: no futebol, na política, nas relações de trabalho, na educação, na economia, nas questões ambientais e até na forma como enxergamos o envelhecimento. Paradoxalmente, nunca tivemos tanto acesso à informação.

Ainda assim, cresce a sensação de que estamos compreendendo cada vez menos uns aos outros. Talvez porque informação, por si só, não seja suficiente para produzir discernimento.

Há poucos dias assisti a um vídeo muito simples. A mensagem era direta: "E se tudo aquilo de que você reclama fosse retirado da sua vida?". A proposta era um convite à gratidão. Mas, ao termino do vídeo, outra pergunta permaneceu comigo: “Será que agradecer é suficiente se continuarmos olhando o mundo apenas pelo ângulo que confirma nossas próprias convicções?”.

Foi então que percebi que, antes da gratidão, existe algo igualmente necessário: o discernimento.

Não falo do julgamento precipitado que separa pessoas entre certas e erradas. Refiro-me à capacidade de observar uma mesma realidade por diferentes perspectivas, reconhecendo que nossas interpretações são influenciadas por experiências, emoções, valores, medos e, muitas vezes, pela vaidade.

Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo não seja aprender a falar melhor, mas aprender a ver melhor. Afinal, toda palavra nasce de um pensamento. Toda decisão nasce de uma interpretação. E toda reputação começa a ser construída muito antes de qualquer discurso público.

É justamente essa reflexão que tem orientado meus estudos e que, aos poucos, vem se organizando em uma perspectiva que passei a chamar de “Dimensão Humana da Reputação”, um convite para compreender como nossas escolhas interiores moldam a confiança, as relações e a forma como somos percebidos — por nós mesmos, pelos outros e pela sociedade.

Mais do que uma definição pronta, esta é uma pesquisa em construção. Um caminho que nasce da observação, do diálogo e da convicção de que, em uma época marcada pelo excesso de opiniões, talvez nossa maior responsabilidade seja cultivar a consciência que antecede cada palavra e cada atitude.

Rose Campos

Rose Campos é jornalista ambientalista e editora da revista "Ecos do Meio".