Por Samara Monteiro
04 de Agosto de 2026 | 16h00
Divulgação / Gemini
Uma discussão recente no LinkedIn reacendeu um debate antigo, mas que ganha novos contornos a cada transformação tecnológica: os limites, a eficiência e as éticas de convivência nas abordagens aos jornalistas de redação. O desabafo de uma repórter sobre o recebimento de cobranças de pauta via WhatsApp pessoal (muitas vezes por mensagens padronizadas e desconectadas de sua área de cobertura) rapidamente mobilizou a rede. De um lado, jornalistas relatam a sobrecarga de lidar com um fluxo incessante de notificações em seus canais privados. Do outro, assessores de imprensa defendem a busca constante por espaço, visibilidade e formas eficientes de abrir portas para seus clientes em um mercado cada vez mais competitivo.
Como profissionais que vivem o dia a dia da comunicação corporativa e das relações públicas, conhecemos bem a complexidade dessa engrenagem. Quem atua em assessoria de imprensa trabalha equilibrando pratos: é preciso corresponder às expectativas legítimas das marcas, traduzir estratégias de negócios em fatos noticiosos e, ao mesmo tempo, buscar caminhos viáveis para acessar veículos que operam com equipes cada vez mais enxutas e rotinas sob forte pressão de tempo. Nesse cenário, o assessor utiliza as ferramentas disponíveis com inteligência e boa intenção, tentando encurtar distâncias e criar conexões reais.
Nesse processo, sabemos também que não existe uma fórmula mágica ou uma regra universal para o contato com a imprensa. A preferência de canal é profundamente individual. Existem jornalistas que priorizam a agilidade e a objetividade do WhatsApp para alinhar detalhes pontuais. Outros preservam o e-mail como a única e principal vitrine para triagem de pautas. Há ainda aqueles que valorizam uma ligação direta, desde que a pauta seja quente, factual, exclusiva e perfeitamente ajustada ao perfil do seu veículo. Respeitar essa diversidade de preferências faz parte da maturidade profissional do comunicador.
No entanto, o valor desse debate público não está em determinar quem está certo ou errado, nem em eleger um "vilão" ou uma "vítima". O verdadeiro ponto de reflexão está em reconhecer como a correria do cotidiano e a busca por metas quantitativas podem nos afastar daquilo que aprendemos desde os primeiros passos da nossa formação: a essência da comunicação é a adequação precisa entre canal, formato, conteúdo e público.
Não se trata de ensinar teoria da comunicação para um público que já domina esses conceitos há anos. Todos nós sabemos, em tese, o peso do alinhamento entre emissor e receptor. O desafio prático é impedir que a ansiedade por entregas rápidas sobreponha esse conhecimento intuitivo. O incômodo que um jornalista sente ao receber uma pauta descontextualizada não nasce do uso do WhatsApp em si, mas do sentimento de que o contato foi genérico; uma mensagem replicada em massa sem o devido cuidado de curadoria. Quando uma sugestão de pauta não dialoga com o perfil do jornalista, o problema não está na ferramenta escolhida, mas na falha de planejamento ao não individualizar a abordagem.
Da mesma forma, é premissa básica da nossa atividade reconhecer que a assessoria de imprensa e o Relações Públicas exercem um papel essencialmente estratégico, e não apenas transacional. Disparar volumes massivos de e-mails para colher menções aleatórias em relatórios pode gerar números no curto prazo, mas não constrói reputação sustentável. A verdadeira comunicação corporativa serve para criar pontes sólidas e duradouras. Resultados reais de imagem e negócios, como influenciar a opinião pública, consolidar porta-vozes como fontes de credibilidade e construir valor de marca, dependem diretamente da nossa capacidade de gerar valor para os dois lados da mesa.
Cabe ao assessor atuar como um filtro crítico e refinado antes de qualquer abordagem. Avaliar se determinado fato possui real interesse público ou se atende apenas a um desejo institucional interno é o que separa a ruído da informação relevante. Quando a pauta entregue é madura e ajuda o jornalista a contar uma história relevante para a sua audiência, a publicação deixa de ser uma "troca de favores" e se torna a consequência natural de um trabalho jornalístico e estratégico bem-feito.
As tecnologias de automação, os novos softwares e os disparadores em massa vieram para somar. Eles otimizam etapas exaustivas de pesquisa, organização de dados e mapeamento de veículos. No entanto, a tecnologia deve ser um meio de eficiência operacional, nunca um substituto para o discernimento e para o fator humano nas relações interpessoais.
A discussão que circula no mercado é, na verdade, uma excelente oportunidade para recalibrarmos as rotas coletivamente. Em tempos de automação acelerada, o maior ativo de um comunicador continua sendo sua sensibilidade estratégica. Personalizar abordagens, entender a rotina do interlocutor e adaptar a mensagem a cada contexto não são apenas práticas recomendadas, são, em última análise, o próprio coração da nossa profissão.
Samara Monteiro
Samara Monteiro é jornalista e especialista em comunicação corporativa, reputação e posicionamento de marcas, com mais de duas décadas de experiência ajudando empresas a transformar estratégia em narrativa. Sócia e Diretora de Atendimento na BRSA, lidera projetos com foco em assessoria de imprensa e relacionamento com stakeholders, com forte atuação no setor de tecnologia B2B e experiência também no segmento do agronegócio. Ao longo da carreira, consolidou uma visão que une pensamento estratégico, sensibilidade humana e foco em resultados, acreditando que a comunicação bem-feita não apenas informa, mas conecta, influencia e gera valor. É apaixonada pela comunicação humana e está sempre disponível para um café acompanhado de boas trocas de figurinhas e aprendizados.