A comunicação como aliada da universalização do saneamento

Por Lígia Sato

24 de Agosto de 2026 | 16h00

Agência Brasil / EBC

Por muito tempo, o saneamento básico foi tratado como um tema restrito às áreas de engenharia, infraestrutura ou gestão pública. Enquanto assuntos como mobilidade, segurança, saúde e educação ocupam espaço constante no debate público, o saneamento costuma permanecer nos bastidores, quase sempre lembrado apenas quando sua ausência ou mau funcionamento resulta em crises.

Talvez esse seja um dos maiores paradoxos do setor: quanto melhor funciona a infraestrutura, menos ela é percebida. Não por acaso, o saneamento é conhecido como uma "obra enterrada". Essa invisibilidade pode dificultar a mobilização de atenção e investimentos compatíveis com sua importância. Para quem vive em regiões com infraestrutura de saneamento consolidada, o acesso à água potável é tão incorporado à rotina que raramente paramos para refletir sobre sua importância. Frequentamos escolas, hospitais e empresas, sem nos dar conta de que seu funcionamento depende do acesso à água e ao saneamento. É justamente por fazer parte da rotina de muitos de nós que o saneamento se torna invisível, embora seus impactos estejam presentes em praticamente todos os aspectos da vida em sociedade. O essencial, muitas vezes, passa despercebido. Com a água e o saneamento não é diferente. 

Quando um tema ocupa pouco espaço na conversa pública, ele também tende a receber menos atenção da sociedade, das organizações, dos próprios formadores de opinião e dos criadores de conteúdo. E, quando falamos de saneamento, isso invisibiliza mais de 30 milhões de brasileiros que ainda convivem diariamente com a ausência de água tratada, de coleta de esgoto e de condições mínimas para uma vida digna. É por isso que a comunicação sobre o saneamento também deve ser entendida como uma estratégia de transformação social. 

Comunicar, neste caso, significa traduzir dados técnicos em informações compreensíveis, transformar indicadores em histórias que revelam seu impacto e aproximar a sociedade de uma pauta que influencia diretamente a saúde pública, a educação, a segurança hídrica e a adaptação às mudanças climáticas.

Casos como o do “fatberg de Londres” ilustram bem esse potencial. Após encontrar um gigantesco bloco de mais de 100 toneladas, com óleo e lenços umedecidos que obstruíam a rede de esgoto da cidade, a companhia Thames Water transformou a remoção em uma campanha pública de conscientização. Ao expor parte do material em um museu e explicar como hábitos cotidianos impactam a infraestrutura subterrânea, a empresa conseguiu transformar um problema técnico em uma conversa acessível para milhões de pessoas. A iniciativa aproximou a sociedade de um sistema que normalmente permanece invisível, o que representa exatamente o tipo de comunicação capaz de gerar conhecimento, engajamento e mudança de comportamento.

Ao longo dos últimos anos, o setor acumulou estudos consistentes que demonstram a relação entre saneamento e qualidade de vida. Há evidências sobre seus impactos na redução de doenças de veiculação hídrica, na frequência escolar, na valorização de territórios, na produtividade econômica e na resiliência das comunidades diante de eventos climáticos extremos. O desafio, muitas vezes, está em fazer com que elas ultrapassem os relatórios técnicos e passem a integrar o dia a dia das pessoas.

No Brasil, um ótimo exemplo desse papel é desempenhado pelo Instituto Trata Brasil, que há anos contribui para qualificar o debate público sobre saneamento por meio da produção e ampla divulgação de estudos, pesquisas e indicadores. Ao transformar dados complexos em conteúdos acessíveis e relevantes para diferentes públicos, disseminados regularmente em múltiplos canais, a instituição ajuda a manter o tema em evidência e reforça a importância de compreender o saneamento não apenas como uma questão de infraestrutura, mas como uma condição indispensável para a saúde, o desenvolvimento, a dignidade e a segurança hídrica. 

Empresas, governos, universidades, organizações da sociedade civil, investidores e veículos de comunicação possuem papéis complementares na construção de uma agenda permanente que amplie a compreensão sobre a importância do saneamento. Quando compartilham pesquisas, divulgam indicadores, apresentam casos concretos e ocupam espaços de diálogo, como eventos, fóruns e publicações especializadas, ajudam a construir uma percepção coletiva sobre a realidade do saneamento e sua relevância para o desenvolvimento do país. 

E, se cada um fizer a sua parte, certamente teremos um futuro com muita mais segurança hídrica. Espero que chegue o dia em que falar sobre a falta de acesso à água tratada seja apenas recordar um desafio que conseguimos superar, de forma colaborativa, como sociedade.

Lígia Sato

Lígia Sato tem quase duas décadas de experiência em sustentabilidade/ESG e comunicação corporativa, com trajetória construída em empresas de grande porte dos setores de aviação - como a LATAM Airlines Brasil - saúde, saneamento e serviços. É formada em Comunicação Social pela USP, com pós-graduação pela Faculdade Cásper Líbero, MBA em Comunicação Empresarial pela Aberje e em ESG pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, é mestranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Hoje, atua como Diretora de Sustentabilidade e Comunicação na PWTech, startup pioneira no desenvolvimento de soluções portáteis, modulares e com monitoramento para o tratamento de água.