Entre telas, riscos e responsabilidades

Por Carina Rodrigues

28 de Agosto de 2026 | 11h00

Fabio Salles

Da esquerda para a direita: Lawrence Chung Kuo, Lisandrea Colabuono, Carla Cavalheiro e Rosenildo Ferreira

A 29ª edição do Congresso Mega Brasil de Comunicação, Inovação e Estratégias Corporativas continua! Entre ontem (27) e hoje (28), a Unibes Cultural, em São Paulo, está sendo palco do maior Congresso de Comunicação Corporativa do País. Sob a temática “Reputação, negócios e os desafios na luta por um planeta sustentável”, o evento traz uma programação composta por seis mesas redondas e três eventos satélites, abordando, novamente, conteúdos com temas de impacto na sociedade e fortemente presentes nas pautas diárias das empresas.

O segundo dia do evento começou com a Arena da Inovação, que colocou em debate os desafios de construir um ambiente digital mais seguro, com o título “Comunicação e Sociedade: responsabilidades e desafios para um ambiente digital seguro”. No palco, para comentar o assunto, tivemos as presenças dos executivos Carla Cavalheiro, Psicóloga Clínica, Coordenadora da equipe de Dependência Tecnológica do PRO-AMITI - Ambulatório dos Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; Lawrence Chung Kuo, Professor-doutor em Comunicação, Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, e Pós-doutorado em Relações Públicas, Propaganda e Turismo, pela ECA/USP; Marcelo Crespo, Coordenador e professor do curso de graduação em Direito da ESPM; Lisandrea Colabuono, Delegada do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo. A mediação esteve a cargo de Rosenildo Ferreira, jornalista da 1 Papo Reto e apresentador do programa Momento 50+, na Rádio Mega Brasil Online.

Entre os temas abordados esteve o crescimento da dependência tecnológica e a relação cada vez mais intensa das pessoas com smartphones e plataformas digitais. Carla Cavalheiro explicou que o problema não está necessariamente no dispositivo, mas na forma como ele é utilizado. “O problema não é o smartphone, mas o que fazemos nele. Redes sociais, jogos eletrônicos e jogos de azar podem estimular uma checagem constante, com respostas imediatas e acesso permanente, criando um ciclo difícil de interromper”, afirmou. Ela complementa que entre 1% e 3% da população mundial sofre com algum nível de dependência tecnológica.

A especialista também chamou atenção para mecanismos presentes nas próprias plataformas que incentivam a permanência dos usuários. Recursos como feed infinito, reprodução automática, validação social e o chamado FOMO (fear of missing out) foram citados como elementos que podem estimular o uso prolongado. Para Carla, parte da prevenção passa pela conscientização. “É importante entender por que estamos navegando, criar dificuldades para acessar o celular, proteger a rotina e perceber os sinais de que o uso está começando a causar prejuízos. Pedir ajuda cedo também é fundamental para evitar que um comportamento de risco se transforme em dependência”, disse.

A segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital foi outro ponto central da discussão. Lisandrea Colabuono contou que o NOAD surgiu em 2024, após as investigações relacionadas aos ataques a escolas ocorridos no ano anterior. “Durante as investigações, percebemos que parte desses ataques havia sido articulada e celebrada em redes sociais e no Discord. A partir daí, surgiu a necessidade de compreender melhor o que estava acontecendo no ambiente digital”, explicou. Segundo ela, as investigações também revelaram uma falta de conhecimento dos pais sobre os conteúdos consumidos pelos filhos. Entre os crimes acompanhados estão casos de aliciamento de meninas em jogos e redes sociais, que podem começar com uma amizade ou relacionamento virtual e evoluir para a troca de imagens íntimas e ameaças.

Participando de forma remota devido a problemas no trajeto, Marcelo Crespo destacou que os riscos digitais precisam ser tratados com mais maturidade pela sociedade. O avanço da inteligência artificial, a exposição de crianças e adolescentes e os efeitos do excesso de telas estão entre os desafios que exigem atenção. “A inteligência artificial já permite a criação de imagens e áudios que podem não ter qualquer relação com a realidade, enquanto o excesso de telas e os riscos para a infância trazem outras consequências. Precisamos discutir esses temas de forma mais madura”, afirmou. Crespo também citou a entrada em vigor do ECA Digital e ressaltou que muitos pais ainda não acompanham a vida digital dos filhos.

A dimensão social do problema também foi destacada por Lawrence Chung Kuo. Para ele, a tecnologia não pode substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento, especialmente na infância. “Estamos diante de um problema estrutural que exige responsabilidade de todos nós. Quando vemos uma criança com um tablet ocupando o lugar da interação familiar, precisamos questionar quais experiências estamos deixando de oferecer”, afirmou. Ao longo da mesa, mediada pelo jornalista Rosenildo Ferreira, os especialistas convergiram para a ideia de que a construção de um ambiente digital seguro depende não apenas de legislação ou tecnologia, mas também de educação, acompanhamento familiar, conscientização e responsabilidade compartilhada entre sociedade, empresas e poder público.

Esse e muitos outros temas que estão bombando no universo da Comunicação Corporativa serão explorados na edição deste ano do Congresso. O evento tem confirmadas as participações das empresas Grupo Carrefour Brasil, CNseg, Volkswagen, Aché – Laboratórios Farmacêuticos, WWF Brasil, Mosaic, L’Oréal Brasil, Bites, DALE, 2 Spread Comm, Toyota, Prospectiva, Indicafix, UOL, Grupo Burson, Ypê, P3K Comunicação, EMS, Robert Half, Einstein Hospital Israelita, SBT, Cooxupé, Unilever, AXIA Energia, RGB, TBWA, Magazine Luiza, Fundação Padre Anchieta, Aberje, Ipsos e Fato Relevante.

O apoio fica por conta das empresas AXIA Energia, DALE, Einstein Hospital Israelita, EMS, Fato Relevante, Gerdau, Grupo Burson, Grupo Carrefour Brasil, Natura, P3K Comunicação, Prospectiva, Unilever, Volkswagen e Ypê. Já o apoio institucional é da Abracom e Unibes Cultural.