Por Rose Campos
14 de Setembro de 2026 | 08h00
Divulgação
Realizado em Goiânia, no Centro de Convenções da PUC Goiás, o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito reuniu cerca de 5 mil participantes, entre presenciais e virtuais, e mobilizou outros 3 mil jovens no Integração Juventude, no final do mês de agosto, em uma programação dedicada à educação financeira, ao empreendedorismo, à inteligência artificial e ao futuro do trabalho. O evento mostrou um setor em expansão, diante da transformação tecnológica, das mudanças climáticas e da necessidade de renovar sua liderança. Ao mesmo tempo, o “Prêmio ProsperaCoop” revelou iniciativas que mostram como sustentabilidade, impacto social e governança podem deixar de ser discurso para se transformar em prática.
A movimentação começa antes mesmo de chegar ao congresso. No aeroporto de Goiânia já era possível perceber que alguma coisa diferente acontecia. Pessoas chegavam e partiam carregando malas, crachás, expectativas e uma mesma identificação. Concred.
Ao longo do caminho até o Centro de Convenções da PUC Goiás, a sensação se confirmava. Eram milhares de pessoas vindas de diferentes regiões do Brasil para participar de um dos principais encontros do cooperativismo financeiro do mundo. Havia dirigentes, conselheiros, gestores, especialistas, profissionais de diferentes áreas, jovens, muitos jovens, e representantes de diversos sistemas cooperativos. Uma diversidade que, mais do que compor o público do evento, revelava a dimensão que o cooperativismo de crédito alcançou no país.
Estar dentro de um congresso com milhares de pessoas é diferente de ler seus números. É perceber que, por trás de cada estatística, existem pessoas, histórias, escolhas, territórios e relações que dão sentido ao crescimento de um setor que deixou de ocupar um espaço periférico no sistema financeiro brasileiro.
Mais do que um congresso do setor financeiro, o 16º Concred parece ter marcado uma mudança de maturidade do cooperativismo brasileiro. A pergunta, portanto, já não é apenas como crescer. É como crescer sem perder a identidade.
Essa questão esteve presente em toda a programação do evento: mais de 60 especialistas e palestrantes distribuídos em cinco eixos temáticos que colocaram lado a lado tecnologia, sustentabilidade, governança, intercooperação, estratégia e humanidade. A própria proposta do congresso foi construída para equilibrar a adoção de novas tecnologias com a essência colaborativa que caracteriza o modelo cooperativista.
Cooperativismo de Crédito
Os números ajudam a compreender a dimensão da transformação.
Em 2025, o cooperativismo de crédito brasileiro alcançou 21,2 milhões de cooperados e R$ 1,36 trilhão em ativos, com crescimento do crédito e das captações acima do restante do Sistema Financeiro Nacional. Sua presença também se expandiu territorialmente: as cooperativas atuam em 3.287 municípios, sendo a única presença financeira em 1.072 deles, fortalecendo produtores, pequenos negócios, empresas e comunidades.
Esse crescimento amplia sua responsabilidade sobre o desenvolvimento dos territórios. Assim, crescimento, sustentabilidade, governança, tecnologia e reputação passam a integrar uma mesma agenda e uma das discussões que ajudou a ampliar essa compreensão apareceu no lançamento da terceira edição da cartilha “Retenção de Riqueza nos Municípios: Relação entre Cooperativas de Crédito e Entes Públicos Municipais”.
Construindo conhecimento
Na abertura do evento, o presidente da Confebras, Luiz Lesse Moura Santos, destacou que os grandes desafios do cooperativismo financeiro exigem reflexão coletiva. Para ele, o Concred é um espaço de convergência em que especialistas, lideranças e profissionais podem construir conhecimento para todo o setor. Na mesma direção, Luís Alberto Pereira, Presidente do Sistema OCB/GO-Organização das Cooperativas Brasileiras, reforçou a importância da modernização e da inovação sem que o cooperativismo perca sua identidade.
Segundo os presidentes, a preocupação não é apenas acompanhar a transformação tecnológica. É preparar pessoas e organizações para uma nova realidade sem abrir mão daquilo que diferencia o cooperativismo financeiro: a proximidade e essa discussão ganhou ainda mais força quando a inteligência artificial entrou em cena.
Na palestra “Cooperativismo na Era da Inteligência Artificial: como liderar a transformação sem perder a essência”, o cientista-chefe da TDS Company, Silvio Meira, chamou atenção para a necessidade de uma nova compreensão do trabalho. Segundo o especialista, a inteligência artificial modifica radicalmente o papel das pessoas e exige uma nova “gramática do trabalho”, na qual o ser humano precisa continuar sendo prioridade.
É justamente aí que surge uma das questões centrais observadas durante o Concred: “Se a tecnologia pode automatizar processos, analisar dados e ampliar a capacidade de decisão, o que não pode ser automatizado quando o que está em jogo é confiança?”. Em texto preparatório do congresso, Luiz Lesse resumiu essa preocupação ao afirmar e confirmar que o cooperativismo nasceu da proximidade e sobrevive dela. Para o presidente da Confebras, portanto, a tecnologia deve qualificar essa proximidade e nunca substituí-la.
Quando o maior capital são as pessoas
Essa preocupação também encontra eco na trajetória de Moacir Krambeck, ex-Presidente da Confebras. Em diálogo com ele e o palestrante Marcelo Cárfora, autor de “Filoscoopia”, conversamos sobre a humanização como um dos princípios que dão sentido ao cooperativismo e sobre o livro “Coração - A história de Moacir Krambeck”, um líder cooperativista guiado pelo coração, de Roberta Caldas, que registra uma trajetória marcada por escolhas em que as relações humanas ocupam lugar central. Krambeck sintetiza, em uma frase, em nosso diálogo o que registrou em sua trajetória sobre o cooperativismo: “O maior capital nas cooperativas são as pessoas.”
A afirmação ganha ainda mais significado quando observada diante dos desafios apresentados no congresso. Se as pessoas são o maior capital, como preservá-lo em um ambiente de transformação acelerada, inteligência artificial, mudanças climáticas, novas relações de trabalho e diferentes formas de liderança? Talvez por tudo isso a pergunta que atravessou o 16º Concred não tenha sido apenas sobre crescimento, mas também sobre identidade.
Quando o futuro exige que as organizações voltem a olhar para as pessoas
Se o maior capital das cooperativas são as pessoas, como lembrou Krambeck, algumas das palestras que pude conferir no 16º Concred parecem ter respondido, cada uma a seu modo, a uma mesma questão: como preparar organizações e pessoas para um futuro que já está acontecendo sem perder aquilo que nos torna humanos?
O psicólogo e especialista em Inovação e futuro do trabalho, Genesson Honorato trouxe essa questão para o cotidiano do trabalho ao discutir os efeitos da tecnologia, da hiperconectividade e da inteligência artificial sobre a atenção humana. Se a atenção se tornou um recurso escasso, preservar a capacidade de escutar, concentrar-se e estabelecer relações passa a ser também uma questão de gestão.
Já a psicanalista, escritora e pesquisadora das relações humanas, Maria Homem ampliou essa reflexão ao propor uma nova compreensão da liderança diante das mudanças nas relações de trabalho, da tecnologia e das formas de convivência. Liderar, nesse novo cenário, deixa de significar apenas conduzir pessoas para resultados e passa a exigir escuta, compreensão e capacidade de construir relações mais saudáveis.
Lisiane Lemos, executiva de Tecnologia e então secretária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade do Rio Grande do Sul, acrescentou outra dimensão ao apresentar a diversidade como estratégia de negócio. Diferentes experiências, origens e perspectivas não deveriam ocupar apenas um espaço simbólico nas organizações, mas participar efetivamente da construção das decisões. A diversidade, nesse sentido, deixa de ser apenas uma questão de representação e passa a ser também uma condição para ampliar a capacidade de compreender problemas, inovar e responder a uma sociedade cada vez mais complexa.
A executiva e especialista em Sustentabilidade e Finanças Sustentáveis, Denise Hills, levou essa mesma discussão para uma escala ainda maior. Ao falar sobre mudanças climáticas, sustentabilidade e decisões econômicas, mostrou que as escolhas financeiras produzem consequências sobre pessoas, trabalhadores, fornecedores, comunidades e territórios. O risco climático, portanto, não é apenas ambiental. É econômico, social e humano.
E Denise Fraga, atriz, escritora e cronista, ao abordar as “Conexões humanas em tempos digitais”, parece fechar esse percurso retomando aquilo que está na origem de todas essas transformações: as relações. Em uma realidade marcada pela comunicação digital e pelo avanço das tecnologias, a reflexão sobre vínculos, empatia e escuta recoloca o ser humano no centro da discussão.
São cinco olhares diferentes para uma mesma questão. Genesson fala da atenção. Maria Homem, da liderança. Lisiane, da diversidade. Denise Hills, da responsabilidade das decisões. Denise Fraga, das relações. Juntos, eles ajudam a compreender que o grande desafio das organizações não está apenas em acompanhar a velocidade das mudanças, mas em não perder as pessoas de vista enquanto mudam.
O que fica quando os números terminam
Foi observando esse conjunto de discussões que uma percepção começou a se formar para mim durante o congresso. Falava-se de inteligência artificial, sustentabilidade, governança, diversidade, liderança, mudanças climáticas, crédito e desenvolvimento. Temas aparentemente diferentes, mas que tinham um ponto de encontro: todos dependiam, de alguma maneira, das escolhas humanas.
A tecnologia pode transformar processos. A inteligência artificial pode ampliar capacidades. Dados podem qualificar decisões. A sustentabilidade pode orientar investimentos. A diversidade pode ampliar perspectivas, mas nada disso elimina a necessidade de confiança. E confiança não nasce de um algoritmo, de um relatório ou de uma campanha de comunicação. Ela é construída nas relações, nas experiências e na percepção que as pessoas formam a partir daquilo que uma organização efetivamente faz.
Foi nesse momento que o Concred cumpriu seu papel e me levou a uma reflexão que ultrapassa o próprio cooperativismo. A reputação de uma organização talvez seja menos determinada pelo que ela afirma ser e mais pela experiência humana que consegue produzir.
É o que tenho chamado de “dimensão humana da reputação”. Não como uma fórmula pronta, mas como uma perspectiva de análise: olhar para aquilo que existe entre o discurso e a prática, entre a promessa e a experiência, entre a passagem e a vivência, entre aquilo que uma organização comunica e aquilo que as pessoas efetivamente sentem e percebem.
Nesse sentido, a frase de Krambeck ganha uma nova dimensão. Se “o maior capital nas cooperativas são as pessoas”, talvez cuidar desse capital não seja apenas uma questão de gestão de pessoas. É também cuidar das relações que sustentam a confiança e, consequentemente, a própria reputação da organização.
No cooperativismo, essa relação parece ainda mais evidente porque sua identidade nasceu justamente da ideia de que pessoas podem se unir para construir algo que individualmente seria mais difícil realizar. Talvez seja essa a verdadeira pergunta que ficou de Goiânia: quando uma organização cresce, o que precisa fazer para que seu tamanho não seja maior do que sua capacidade de continuar sendo reconhecida pelas pessoas como aquilo que diz ser?
Prêmio ProsperaCoop 2026 Quando ESG deixa de ser discurso
Criado pela Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), o prêmio reconhece práticas de sustentabilidade desenvolvidas pelas cooperativas de crédito brasileiras. A iniciativa integra o “Programa ProsperaCoop”, que tem como referências os valores do cooperativismo, a agenda ESG e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas.
Em sua segunda edição o prêmio trabalhou com três categorias: “Meio Ambiente”, “Social” e “Governança”. Poderiam participar projetos de impacto socioambiental que tenham sido iniciados até janeiro de 2024. Essa exigência é relevante porque desloca a avaliação da promessa para a prática, ou seja, não se tratava de apresentar uma ideia para o futuro, mas de demonstrar a existência de uma iniciativa em desenvolvimento e seus resultados, comenta a idealizadora do prêmio, Telma Galletti, Superintendente da Confebras.
A seleção também foi realizada em etapas e após a avaliação técnica, foram selecionados 60 projetos, sendo 20 de cada categoria. Os finalistas, avaliados por uma equipe altamente qualificada e em suas áreas, foram comunicados em junho e a classificação final foi revelada no 16º Concred. “O que torna o ‘ProsperaCoop’ particularmente importante é justamente a possibilidade de transformar ESG em prática”, diz Cláudia Leite, especialista em ESG e curadora do prêmio. Além disso, para as organizadoras, o prêmio é também uma forma de criar referências dentro do próprio setor, pois uma cooperativa passa a olhar para outra e perceber que uma prática pode ser adaptada, aperfeiçoada e reproduzida em outro território. “E para nós, isso é gratificante”, acrescentam Telma e Cláudia.
Além disso, para as responsáveis, o prêmio dá visibilidade a iniciativas que muitas vezes permaneceriam restritas à organização que as desenvolveu e, ao mesmo tempo, aproxima sustentabilidade a reputação. Uma organização pode comunicar que tem propósito. Mas é a prática que dá consistência ao discurso. O “ProsperaCoop”, portanto, funciona, nesse sentido, como uma espécie de vitrine dessa coerência.
Os projetos que se tornaram vitrine
. Meio Ambiente: 1º lugar — Unicred Premium Capital
. Projeto: “Batalhão do Bem! O Cooperativismo em Ação”
Criado em Santa Maria (RS), o projeto combina reutilização de resíduos têxteis, qualificação profissional, geração de renda e empreendedorismo. A iniciativa já atuou em municípios como Santa Maria, Santiago, Uruguaiana e Cachoeira do Sul e, em 2026, ampliou sua atuação para Santa Cruz do Sul. O projeto já reaproveitou mais de três toneladas de resíduos, realizou a certificação de mais de 200 pessoas e mais de mil horas de capacitação.
. Social: 1º lugar — Unicred União
. Projeto: “Vila Cooperar”
Realizado em Joinville (SC), o projeto levou música, cultura, educação financeira e princípios do cooperativismo a aproximadamente 2 mil alunos de 17 escolas municipais, utilizando o teatro musical como instrumento de aprendizagem e inclusão.
. Governança: 1º lugar — Sicoob Sarom
. Projeto: Movimento CoopEducação
Criado em 2013, em São Roque de Minas (MG), o programa trabalha educação cooperativista, empreendedora, financeira e sustentável e se expandiu para outros 17 municípios com mais de 120 escolas parceiras, alcançando mais de 60 mil alunos e capacitando mais de 2.200 professores.
Os três projetos revelam algo importante: sustentabilidade não tem uma única forma. Ela pode estar na redução de resíduos e na geração de renda. Pode estar na educação e na cultura. Pode estar na formação de crianças e jovens para a continuidade do próprio modelo cooperativista e é nessa diversidade que o conceito de ESG ganha concretude.
Mulheres: maioria no trabalho, minoria no poder
Um dos dados que mais chamou a atenção durante o congresso veio justamente da discussão sobre liderança feminina. No cooperativismo financeiro, 59% da força de trabalho é formada por mulheres. Elas ocupam 49% dos cargos gerenciais, praticamente metade das posições de gestão. Mas quando se chega aos espaços de maior poder decisório, a proporção cai para 26% na presidência e nos conselhos.
Os números revelam uma transformação, mas também expõem uma questão: Se as mulheres já são maioria entre os profissionais do setor e estão próximas da metade dos cargos gerenciais, por que ainda não ocupam uma parcela equivalente dos espaços máximos de decisão?
A pergunta ganhou visibilidade com o lançamento do livro “Vozes que Ecoam– Liderança com propósito”, organizado pela idealizadora do ProsperaCoop, Telma Galletti.
A obra reúne histórias de 40 lideranças femininas do cooperativismo em atividade e duas homenageadas. A proposta da obra, segundo Telma, é justamente dar visibilidade a trajetórias que muitas vezes permanecem invisíveis e incentivar mulheres a ocupar espaços de decisão.
Um olhar particular
Minha presença no 16º Concred teve ainda uma dimensão particular. Venho acompanhando o movimento de sustentabilidade das cooperativas de crédito também como avaliadora do “Prêmio ProsperaCoop”, experiência que se estende às duas edições da premiação e essa participação muda também o lugar de onde observo o congresso.
Ao circular pelo evento, não olhei apenas para o tamanho da estrutura, para a força econômica do cooperativismo ou para a quantidade de participantes. Procurei observar o que existe por trás dos números: as pessoas, as escolhas, as práticas e a coerência entre aquilo que as pessoas e organizações dizem defender e aquilo que efetivamente realizam.
Foi nesse percurso que uma percepção ganhou força, ou seja, por trás da atividade financeira existe uma dimensão que os números não conseguem revelar completamente: A dimensão humana. Ela aparece na relação com o cooperado. Na confiança construída ao longo do tempo. Na escolha de onde investir. Na decisão sobre quem terá acesso ao crédito. Na preocupação com o território. Na formação de uma nova liderança. Na participação das mulheres. Na preparação dos jovens. Na maneira como uma organização responde às mudanças climáticas. Na forma como utiliza uma tecnologia que pode ser cada vez mais poderosa sem deixar que ela substitua aquilo que dá sentido à própria cooperação, até a suavidade em revelar ações através da poesia...
É exatamente nesse espaço entre discurso, prática e a suavidade de ecoar e cooperar que a reputação começa a ser construída.
Em 2026, reverberamos. Em 2028, ouviremos seus ecos.
Como já observado, o que se viu em Goiânia indica que o cooperativismo financeiro já não está discutindo apenas crescimento. Está discutindo identidade e nesse debate, a tecnologia, a sustentabilidade, a governança, a diversidade e o desenvolvimento territorial parecem apontar para uma mesma direção: a necessidade de recolocar as pessoas no centro.
Portanto, em 2028, em São Paulo, muitas perguntas e respostas estarão mais maduras e outras dúvidas e novos questionamentos encontrarão seus ecos.
Rose Campos
Rose Campos é jornalista ambientalista e editora da revista "Ecos do Meio".