Por Patrícia Marins
05 de Outubro de 2026 | 08h00
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Durante muito tempo, uma crise reputacional começava com um fato. Um acidente, uma denúncia, uma declaração, uma decisão equivocada. A comunicação entrava depois, tentando organizar informações, responder perguntas e reduzir danos. A inteligência artificial está alterando essa lógica. Em 2026, uma organização pode começar a enfrentar uma crise antes mesmo que o fato exista.
As eleições deste ano são um dos grandes testes dessa realidade. Conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial já fazem parte do ambiente eleitoral, enquanto a Justiça Eleitoral estabelece limites para o uso dessas ferramentas nas campanhas. As regras para 2026 exigem a identificação de conteúdos sintéticos utilizados na propaganda e impõem restrições a materiais manipulados que possam afetar a integridade do processo eleitoral. Também há uma limitação específica para a circulação de novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nos períodos imediatamente anterior e posterior ao pleito.
O ambiente eleitoral ajuda a entender por que essa discussão é mais complexa do que parece. Conteúdos produzidos com inteligência artificial podem combinar imagens, vozes, personagens e situações reconhecíveis para construir narrativas com aparência de realidade. Quando isso acontece em um contexto marcado por polarização e alta velocidade de circulação, a distinção entre informação, manipulação e ficção pode se tornar menos evidente para quem recebe o conteúdo. E, uma vez produzida a reação, a correção posterior pode não conseguir desfazer completamente a primeira impressão.
Esse é o ponto que deveria interessar não apenas a candidatos, partidos e autoridades, mas também às empresas. A inteligência artificial está reduzindo a distância entre uma narrativa e uma crise. Não é mais necessário que um acontecimento ocorra para que uma organização precise administrá-lo. Basta que uma versão suficientemente convincente desse acontecimento circule, encontre audiência e seja associada à marca, à liderança ou à instituição.
Uma empresa pode ser inserida em uma narrativa que nunca aconteceu. Um executivo pode ter a voz clonada para sustentar uma declaração falsa. Uma imagem pode fazê-lo parecer em um lugar onde jamais esteve. Em todos esses casos, o problema reputacional começa antes mesmo que a organização consiga provar que aquilo não aconteceu.
As eleições tornam esse processo mais visível porque concentram elementos que aceleram uma crise: polarização, disputa de narrativas, alta exposição, forte componente emocional e enorme velocidade de circulação. Mas o mecanismo não pertence à política. O ambiente corporativo está sujeito à mesma lógica. O que muda é o assunto. A dinâmica de formação da percepção é praticamente a mesma.
Por isso, a desinformação produzida com IA precisa deixar de ser tratada apenas como um problema de conteúdo. Ela é também um problema de gestão de risco. A pergunta não pode ser somente se determinado vídeo, áudio ou imagem é verdadeiro ou falso. É preciso compreender qual percepção aquele material está produzindo, quem está sendo alcançado, qual é o potencial de propagação e que tipo de consequência pode surgir antes que a organização consiga reagir.
Essa mudança exige outro tipo de monitoramento. Acompanhar menções à marca continua sendo necessário, mas já não é suficiente. É preciso identificar narrativas que ainda estão se formando, observar conteúdos que começam a ganhar tração e reconhecer sinais de que uma história pode ultrapassar o círculo em que nasceu. A crise pode estar começando em um ambiente que não aparece nos canais tradicionais de monitoramento e chegar à imprensa somente depois de já ter produzido um efeito relevante.
A resposta também precisa ser preparada antes. Quem identifica um conteúdo suspeito? Quem verifica sua autenticidade? Quem preserva os registros? Quem avalia o risco jurídico? Quem decide se a empresa deve responder? Quem prepara o porta-voz? E, principalmente, quem tem autoridade para tomar essa decisão quando o tempo disponível for de minutos, e não de dias?
Essas perguntas não podem ser respondidas durante a crise. Comunicação, jurídico, tecnologia, segurança da informação e liderança precisam construir previamente um fluxo de atuação. A inteligência artificial trouxe uma nova camada técnica para o problema, mas a decisão sobre reputação continua sendo humana. Não existe ferramenta capaz de determinar sozinha quando responder, quando silenciar, quando judicializar ou quando deixar que uma narrativa perca força naturalmente.
O próprio processo eleitoral mostra que esse desafio exige uma combinação de tecnologia, governança e resposta institucional. Em agosto, o TSE criou um conselho consultivo dedicado à integridade informacional nas eleições de 2026, com atribuições relacionadas ao acompanhamento da desinformação, do uso indevido de inteligência artificial e da manipulação de conteúdo digital. O Tribunal também vem estabelecendo cooperações específicas para enfrentar conteúdos sintéticos e deepfakes.
Mas tecnologia de detecção não resolve sozinha o problema da confiança. Mesmo quando um conteúdo é identificado como falso e removido, a primeira impressão pode permanecer. A informação já pode ter sido compartilhada, comentada e incorporada à percepção de quem a recebeu. O desmentido chega depois de a narrativa ter começado a produzir seus efeitos.
É por isso que velocidade não pode ser confundida com impulsividade. Nem toda falsificação precisa virar uma manifestação pública. Em determinados casos, responder pode ampliar justamente o alcance que se pretendia reduzir. Em outros, o silêncio pode permitir que uma narrativa falsa se consolide. A decisão depende de contexto, origem, alcance, velocidade, público atingido, potencial de dano e capacidade de propagação. O que muda na era da IA é que essa avaliação precisa acontecer muito mais cedo.
Há ainda uma consequência menos evidente. Quanto mais sofisticadas se tornam as falsificações, maior é o valor daquilo que pode ser comprovado. Documentos, registros, históricos, fontes primárias e evidências preservadas passam a ter importância também para a comunicação. A organização que precisar contestar um conteúdo falso terá de demonstrar não apenas que ele é falso, mas qual é a realidade que deve ocupar seu lugar.
Nesse ambiente, reputação deixa de ser apenas uma questão de imagem. Uma organização que constrói relações consistentes com seus públicos chega a uma crise com um patrimônio que não pode ser produzido artificialmente. Clientes, colaboradores, jornalistas, investidores, parceiros e comunidades que reconhecem coerência entre discurso e prática oferecem algo que nenhuma tecnologia consegue garantir: a disposição de ouvir antes de concluir.
Isso não significa que confiança seja uma espécie de proteção contra a desinformação. Não é. Empresas e lideranças com boa reputação também serão alvo de conteúdos falsos. A diferença está na capacidade de seus públicos de considerar aquela informação dentro de um histórico de relações e de dar à organização a oportunidade de apresentar sua versão.
Por isso, preparar-se para a desinformação não significa tentar controlar tudo o que é dito sobre uma empresa. Significa conhecer seus riscos reputacionais, entender quais temas podem ser utilizados contra ela, organizar evidências, preparar porta-vozes e estabelecer critérios claros para tomada de decisão. Significa, sobretudo, não esperar que a primeira falsificação apareça para começar a discutir como a organização vai reagir.
As eleições de 2026 estão mostrando que a inteligência artificial não é apenas uma nova ferramenta de comunicação. Ela está mudando a velocidade com que uma narrativa pode nascer, a aparência de realidade que pode adquirir e o tempo que instituições e organizações têm para responder.
A crise, portanto, pode chegar antes do fato. E essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para quem administra reputação. No ambiente de inteligência artificial, não será suficiente estar preparado para responder ao que aconteceu. Será necessário estar preparado também para responder ao que parece ter acontecido.
Patrícia Marins
Patrícia Marins é sócia fundadora da Oficina Consultoria, especialista em Gestão de Crises de Alto Risco Reputacional e autora de "Muito além do Media Training – o porta-voz na era da hiperconexão".