A dimensão humana da reputação

Por Rose Campos

23 de Outubro de 2026 | 08h00

Gemini

Fui surpreendida pelo debate presidencial. Ao acompanhá-lo, encontrei vários pontos para uma reflexão sobre a comunicação e a dimensão humana, especialmente sobre como comportamentos, palavras e silêncios influenciam a reputação.

Na era da tecnologia, velhas táticas continuam encontrando espaço e produzindo resultados. Uma delas é fugir de uma resposta com outra pergunta. Não uma pergunta que aprofunde a discussão, mas uma que desvie o foco, provoque o adversário e exija explicações, confrontos e verificações. Tudo isso demanda tempo, justamente um recurso escasso em um debate. Nesse cenário, habilidade e diplomacia seriam fundamentais. Na minha percepção, porém, a provocação e a tentativa de desestabilização acabaram se sobrepondo à experiência.

A movimentação pelo palco também chamou minha atenção. Parecia atender a dois objetivos: produzir cenas para as redes sociais e tirar a concentração do adversário. Nessa lógica, o desempenho no conjunto perde importância diante da possibilidade de extrair recortes favoráveis. Uma frase de efeito ou uma provocação pode circular milhares de vezes, mesmo que o contexto completo não sustente a impressão transmitida.

Estamos falando, portanto, de como a comunicação é construída e interpretada. Mas qual é a qualidade dessa comunicação? Até que ponto os candidatos consideram a responsabilidade que acompanha aquilo que dizem e aquilo que deixam de responder?

Assuntos sérios, que afetam diretamente nossa vida, parecem receber um tratamento calculado em função de sua repercussão nas redes. A lógica seria: É melhor não responder do que dizer algo que possa viralizar negativamente. Responder com outra pergunta torna-se, assim, uma estratégia conveniente: a provocação ganha destaque, enquanto a questão original desaparece dos recortes.

É triste assistir a dois candidatos à Presidência de um país como o Brasil dedicando tão pouco espaço ao esclarecimento que a população merece. A preocupação aumenta quando a ironia e a agressividade parecem naturalizadas como parte “do jogo”. O cargo que disputam exige responsabilidade diante de pessoas cujas necessidades não podem ser reduzidas a oportunidades de engajamento.

Um ponto, em especial, chamou minha atenção logo no início do debate: a licença maternidade. Um tema sério que ultrapassa os direitos trabalhistas e envolve proteção à infância, saúde materna, segurança econômica, permanência das mulheres no mercado de trabalho e responsabilidade social. A pergunta ficou sem resposta, e essas conexões tampouco foram desenvolvidas quando a discussão passou à saúde.

O debate se tornou um grande quebra-cabeça com muitas peças soltas e esperar que o espectador estabelecesse sozinho essas relações seria transferir a ele uma responsabilidade dos candidatos: apresentar explicações claras, adequadas e suficientes sobre suas propostas e decisões.

Concluindo, a “Dimensão Humana da Reputação (DHR)”, abordagem que venho desenvolvendo a partir dos meus estudos em Psicologia Organizacional, orienta meu olhar sobre como relações, comportamentos e atitudes influenciam a construção da confiança. Sob essa perspectiva, a credibilidade se revela na coerência entre o discurso, as decisões e o respeito às pessoas. Essa reflexão também se aplica às empresas: como sustentar compromissos com ESG quando perguntas são ignoradas, o diálogo dá lugar à intimidação e a comunicação serve mais à imagem do que ao esclarecimento?

Esse paralelo convida a refletir sobre os riscos psicossociais no trabalho. Como uma organização pode conhecer sua realidade se as pessoas têm receio de falar, se suas preocupações são desqualificadas ou se a liderança transforma questionamentos em confrontos? A qualidade da comunicação influencia as relações, a confiança para expressar dificuldades e a possibilidade de reconhecer problemas e enfrentá-los.

Para uma empresa, um indivíduo ou uma nação, o compromisso com os princípios ESG exige que a escuta e a responsabilidade ao responder sejam prioridades nas decisões, na condução dos desafios e nas relações cotidianas.

Afinal, uma pergunta sem resposta também revela uma postura diante de quem a fez e de quem precisava ouvi-la. Os silêncios comunicam, as esquivas deixam marcas e seus ecos também constroem reputações.

Rose Campos

Rose Campos é jornalista ambientalista e editora da revista "Ecos do Meio".