Voluntariado corporativo como ferramenta para compartilhar valor

27 de Outubro de 2026 | 16h00

Gemini

Vivemos em um mundo cada vez mais conectado digitalmente,  extremamente polarizado e marcado por inúmeras diferenças sociais e econômicas. Nesse contexto, encontrar espaços de diálogo e convivência entre pessoas com realidades distintas é um desafio. Dentro das empresas, falamos frequentemente sobre diversidade, inclusão, empatia, colaboração e propósito. Mas quantas oportunidades oferecemos para que esses valores sejam efetivamente vivenciados na prática? Diante desse cenário complexo, o voluntariado corporativo ganha uma dimensão que vai muito além da responsabilidade social.

Durante muito tempo, o voluntariado empresarial esteve associado principalmente a campanhas de arrecadação, ações em datas comemorativas ou mobilizações pontuais em comunidades. Todas essas iniciativas são valiosas, mas acredito que elas possuem um potencial ainda maior quando passam a integrar uma estratégia mais ampla de sustentabilidade e geração de valor compartilhado para a sociedade.

Sempre que falamos em voluntariado, imediatamente associamos o benefício a quem recebe a mentoria ou o suporte. No entanto, um dos aspectos que considero mais interessantes nessa prática são justamente os diversos benefícios que experimentamos como voluntários. A possibilidade de sair da nossa própria bolha e da nossa rotina nos aproxima de pessoas com trajetórias, referências e condições de vida diferentes das nossas. Somos convidados a conhecer outras histórias, ouvir perspectivas diferentes e questionar percepções que, até então, pareciam óbvias ou até mesmo naturais. Você já pensou em ser um(a) voluntário(a)?.

Trago também a perspectiva apresentada no estudo “Voluntariado e Comunicação na Empresa: Para Além da Inclusividade Controlada”, da pesquisadora Dulcemar Jacqueline da Costa, que analisou o programa de voluntariado corporativo do Grupo Belgo, em Minas Gerais. A pesquisa mostra como essas iniciativas podem criar espaços de participação mais autônomos e relações menos hierarquizadas, aproximando profissionais de diferentes áreas e fortalecendo os vínculos com a comunidade. Outro aspecto interessante é a diversidade de motivações que levam as pessoas a se voluntariar, que vão desde experiências pessoais e familiares até o desejo de integração e contribuição social. O estudo reforça uma reflexão: quando existe espaço para a participação espontânea e o protagonismo dos funcionários, o voluntariado pode ir além do impacto nas comunidades e contribuir para transformar também as relações dentro das organizações.

Tenho vivenciado isso de maneira muito especial em uma experiência de mentoria com uma jovem do interior da Bahia, em uma iniciativa do Instituto Reciclar e do Instituto Lina Galvani. Saio super enriquecida a cada encontro. Embora estejamos em momentos de vida bastante diferentes, eu vejo nesses diálogos uma oportunidade valiosa de aprendizado. As nossas conversas envolvem experiências, expectativas, perspectivas de futuro e reflexões sobre a minha própria trajetória profissional e pessoal. 

É interessante também perceber como, apesar das diferenças geracionais, sociais e territoriais, temos dúvidas, sonhos e inquietações similares. Afinal, ninguém possui todas as respostas e a escuta ativa, praticada de forma genuína, é uma das competências exclusivamente humanas mais importantes que podemos desenvolver.

Vejo também que essa perspectiva gera muito valor para as empresas. Quando profissionais entram em contato com outras realidades, eles ampliam seus repertórios e exercitam habilidades que nem sempre encontram espaço na rotina de trabalho. Você já parou para pensar o quanto escutar sem prejulgamentos, compreender diferentes realidades e pontos de vista, adaptar nossa forma de nos comunicar e construir soluções em conjunto são capacidades fundamentais tanto para as relações de respeito quanto para o exercício da liderança?

Existem diversos modelos de voluntariado, desde ações de arrecadação e revitalização de espaços públicos até projetos complexos e mentorias individuais. No entanto, o melhor modelo não precisa ser aquele que mobiliza mais pessoas ou produz mais números e mais imagens bonitas para estampar o seu relatório anual de sustentabilidade. O melhor modelo é aquele que responde às necessidades reais, respeita as particularidades das comunidades parceiras, e encontra conexão com as competências e a estratégia da organização e, acima de tudo, é feito de forma genuína. 

Lembre-se: o voluntariado precisa continuar sendo voluntário. A empresa pode oferecer estrutura, tempo, incentivo e diferentes possibilidades de participação, mas o envolvimento deve partir de uma escolha genuína do colaborador. Transformar essas iniciativas em metas individuais ou criar constrangimentos para quem não participa pode esvaziar completamente o sentido da ação. Como lideranças, devemos favorecer o surgimento de novas conexões, estimular o protagonismo dos funcionários e permitir que valores como respeito, colaboração e cuidado passem a fazer parte de experiências concretas no dia a dia das empresas.

Percebo que, quando um(a) executivo(a) se dispõe a conhecer pessoalmente os territórios e as pessoas impactadas pelas iniciativas apoiadas pela organização, ele(a) “arregaça as mangas” e demonstra que o seu compromisso social individual vai muito além dos indicadores e apresentações corporativas. É uma oportunidade de engajar e aproximar as decisões estratégicas de negócio das realidades que elas pretendem transformar, dando ainda mais humanidade a essa relação. E, acima de tudo, mostrar que é humano. Todo mundo sai ganhando. 

No âmbito individual, independentemente das motivações para o voluntariado, que podem ser tão diversas quanto as próprias pessoas, precisamos acolher a diversidade, oferecendo diferentes portas de entrada, sem pressupor que todos devam se envolver da mesma maneira.

Para as empresas, reforço que indicadores são importantes, mas não contam toda a história. É necessário observar a qualidade das relações construídas, a continuidade e a sustentabilidade das iniciativas, a contribuição efetiva para as comunidades e valorizar os aprendizados que permanecem após o término das atividades, inclusive nas ações de comunicação estratégica. 

Essa mudança de perspectiva exige humildade, escuta e reconhecimento de que o conhecimento não está concentrado em um único lugar. 

Ao refletir mais profundamente sobre o papel das empresas na sociedade e sobre o legado que deixamos, talvez uma das contribuições mais relevantes do voluntariado seja justamente nos lembrar de algo simples: antes de sermos profissionais, somos pessoas. E agora, ao final desta reflexão, retomo a pergunta que fiz no início: e você, já pensou em ser voluntário(a)?.

Lígia Sato

Lígia Sato tem quase duas décadas de experiência em sustentabilidade/ESG e comunicação corporativa, com trajetória construída em empresas de grande porte dos setores de aviação - como a LATAM Airlines Brasil - saúde, saneamento e serviços. É formada em Comunicação Social pela USP, com pós-graduação pela Faculdade Cásper Líbero, MBA em Comunicação Empresarial pela Aberje e em ESG pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente, é mestranda em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Hoje, atua como Diretora de Sustentabilidade e Comunicação na PWTech, startup pioneira no desenvolvimento de soluções portáteis, modulares e com monitoramento para o tratamento de água.