Comunicação interna, mais estratégica do que nunca

Por Elisa Prado

06 de Outubro de 2020 | 14h00

A comunicação corporativa aumentou sua relevância na pandemia. Com colaboradores em casa, acabaram os encontros casuais nos corredores ou a pausa para o café – momentos em que ouvíamos sobre o trabalho de outras pessoas e as diversas iniciativas da empresa. Assim, a área se tornou crucial para as organizações compartilharem objetivos, manterem as pessoas atualizadas e promoverem a interação.

Faz tempo que venho refletindo sobre o papel estratégico da comunicação, mas o isolamento reforçou minha percepção. Já não basta falar sobre atividades da rotina ou apresentar novos funcionários. É preciso compartilhar o propósito da empresa. Explicar às pessoas o motivo de estarem ali. Construir uma narrativa que seja um guia sobre o momento e os próximos passos da organização. O resultado é mais produtividade, criatividade e engajamento.

Segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), a comunicação interna foi o processo mais afetado pela crise da Covid-19. Na Vivo, também olhamos com atenção para esse tema nos últimos meses. Sabíamos que era fundamental manter nossos 33 mil colaboradores informados, conscientes do que acontecia. O desalinhamento de mensagens intensificaria a ansiedade e a insegurança num momento tão delicado. Baseamos o trabalho em três conceitos: confiança, segurança e transparência.

Já tínhamos plataformas digitais como a intranet e o Workplace, além da possibilidade de fazer home office duas vezes por semana. Sempre comunicamos primeiro dentro da companhia o que, depois, é dito para fora. Mesmo já com essa dinâmica, intensificamos as mensagens durante a pandemia, montando um ponto de encontro virtual acessível a qualquer momento.

Nosso presidente, Christian Gebara, foi protagonista nos primeiros meses. Por meio de lives, passou informações à equipe, elogiou o trabalho dos times de campo, assegurou que não demitiríamos pessoas e ressaltou a importância de acompanhar os canais de comunicação.

Seus recados deram o tom para a liderança, enquanto criávamos outros conteúdos. Entre eles, a série #TrabalheBememCasa, com dicas sobre ergonomia, alimentação e gerenciamento do estresse. Promovemos encontros virtuais com especialistas em temas como relacionamentos, criatividade e solidão. Sempre no espírito do propósito da Vivo, de Digitalizar para Aproximar.

Gostei especialmente do Diário de Mobility, por meio do qual profissionais mostraram seu dia a dia em home office, e do AoVivo em Casa, shows que colaboradores com talentos artísticos fizeram no Workplace. Os dois projetos colocaram os funcionários da Vivo como protagonistas. Pessoas falando com pessoas – e é nessa comunicação que cada vez mais acredito. Vivemos num mundo em rede. Se antes as empresas impunham suas pautas, agora lidam com a comunicação de baixo para cima. Às vezes, a informação que vem do colega tem mais credibilidade do que a que vem do diretor.

Por ser uma via de várias mãos, a comunicação precisa de líderes espalhados pela empresa. Eles são fundamentais para disseminar informações estratégicas. É surpreendente, mas ainda há quem acredite que informação é poder e, portanto, não a compartilha. Precisamos quebrar esta barreira e construir uma cultura de comunicação fluida e aberta ao diálogo. Para isso, além de falar, devemos ouvir com atenção. Na Vivo, criamos um treinamento para ajudar os líderes a desempenharem melhor o papel de comunicadores e ouvintes.

Empresto um trecho do livro Sem megafone, com smartphone, de Rozália Del Gáudio e Paulo Henrique Soares, que me inspirou em algumas de minhas reflexões recentes: “De todos os grupos que se relacionam com as organizações, os empregados são o que apresenta maior nível de complexidade para os comunicadores. Isso porque são os únicos a transitar por dois universos que se completam, o interior e o exterior das organizações, vivenciando seus dilemas, suas contradições, suas decisões, seus silêncios e suas verborragias.

Quem trabalha na empresa tem consciência do que é bom e do que é ruim. É imperativo aprender a dialogar com todas as pessoas. Se elas não encontrarem espaço para se expressar internamente, buscarão outros meios para dizer o que pensam; e se não conhecerem a narrativa oficial, acessarão outras fontes, nem sempre qualificadas, para se informar. Quem enxerga mais os pontos positivos da empresa, tende a se tornar embaixador da marca, defendendo a companhia durante uma crise e ajudando a resolver os problemas. Mas isso só é possível por meio de uma comunicação transparente, direta e contínua.

Elisa Prado

Elisa Prado é especialista em Planejamento e Gestão da Reputação de empresas. Profissional de comunicação há mais de 30 anos, atua hoje como Diretora de Comunicação Corporativa da Telefônica Brasil, dona da marca Vivo. Graduada em Comunicação Social pela PUC de Campinas (SP),  pós-graduada na ESPM (SP). Sua trajetória profissional iniciou-se em 1984 e se deu em empresas multinacionais como Johnson & Johnson, Deutsche Bank, Vivo e Tetra Pak, além de ter atuado em agências de publicidade e relações públicas como AAB, Ogilvy & Mather e Calia Assumpção & Associados.